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Juiz Armando Fernandes Filho, da Comarca de Cássia lança coletânea com sete livros sobre justiça

Por Adriana Dias / Redação

27 de setembro de 2021

Foto: Divulgação.

Juiz da 1ª Vara Cível, Criminal e da Infância e da Juventude de Cássia Armando Fernandes Filho, 67 anos, natural de Pouso Alegre, já atuou como promotor de justiça, tendo assumido o primeiro cargo em Iturama, de onde foi para Paraguaçu, depois para Cássia, Itabira e São João Del Rey. Fez concurso para a magistratura e assumiu o cargo de juiz em Alpinópolis, de onde voltou para Cássia e não quer sair. Já poderia ter se aposentado, mas segue trabalhando.

Casado com Elaine, o casal tem os filhos André, Paulo Emílio e Marco Flávio. Este homem de fala serena e pulso firme está lançando, pela editora Lemos & Cruz, a coleção ‘Justiça: nós temos um sonho’, composta de sete volumes que refletem sobre os juízes e todos os que tomam decisões em suas esferas de atribuições.

O convite para saborear a obra é do próprio autor, que diz: ‘um poeta disse que mineiro não estica conversa com estranho. Já que não somos estranhos – temos o mesmo sonho, uai –, quero espichar prosa para tratar dos que julgam e do ato de julgar, partilhando causos, emoções e sentimentos, e remoer pensamento’.

A reportagem foi recebida pelo juiz em seu gabinete no início desta semana para este ‘dedo de prosa’ sobre a obra que ainda não teve um lançamento oficial, em virtude da pandemia, mas que a Folha da Manhã lança aqui nesta entrevista.

Folha da Manhã – Como foi o processo criativo das obras que se transformaram numa coleção, a ‘Justiça: nós temos um sonho’, de sua autoria?

Armando – A coleção foi escrita durante uns 20 anos, nos quais a gente vai amadurecendo e vendo transformações na sociedade. A vida é extremamente dinâmica e a gente, para não perder a visão de conjunto e “dar o recado” pretendido, vai atualizando aqui e ali, cuidando para não repetir argumentos em volumes diversos. Em razão da extensão da obra e de tudo que queria tratar, foram feitas várias revisões pontuais e gerais. Apesar disso, o dinamismo da vida é tão intenso que não tem como você contar tudo o que acontece. Vários exemplos citados, embora mais antigos, históricos, são representativos do que queria partilhar e dos fenômenos que queria examinar em companhia do leitor, sendo desnecessária a citação de alguns fatos mais recentes e mal esclarecidos, evitando-se, assim, o risco de precipitações e injustiças. Tentei fazer de uma maneira que a obra ficasse mais atemporal. Os fatos que eu cito, são para ilustrar os argumentos. A vontade de acrescentar assuntos levava ao risco de nunca a terminar a coleção. Afinal, como disse Walt Whitman, um livro não precisa ser algo completo, partindo-se do princípio de que o próprio leitor o completará

FM – Começou a escrever com uma intenção específica?

Armando – A intenção inicial era falar sobre a justiça porque eu acredito que, como está no Velho Testamento, a justiça é como um sol que traz a cura em seus raios e que, sem justiça, todas as outras virtudes são sem preço. O próprio Aristóteles falava que as virtudes são o meio termo entre a falta e o excesso de algo; a coragem, por exemplo, seria o meio termo entre a covardia e o destemor. Com todas as virtudes seria assim, menos com a justiça, que é a virtude absoluta. Se falta um pouco, já é injustiça, não é? Então, a vontade era falar da justiça, mas acabei ‘comendo o mingau pelas beiradas’, falando daqueles que julgam e do ato de julgar. Primeiro, porque existem obras sensacionais sobre a justiça; segundo, porque o conceito de justiça é “aberto” e somente atingirá foros de estabilidade à medida que o homem se aproximar da perfeição. E, como ainda não somos perfeitos, preferi tratar do ofício e dos que se encarregam dele; indiretamente, tratando também da própria Justiça, pois, conforme o Padre Antônio Vieira, “o ofício há-se de transformar em natureza, a obrigação há-se de converter em essência …”.

FM – Quando iniciou a escrita desta obra o senhor já atuava como magistrado?

Armando – Já era juiz quando comecei. Eu fui primeiro promotor de justiça durante 8 anos, inclusive em Cássia, e depois voltei como juiz. A obra, inicialmente, tinha um volume, depois três. Foi sendo aumentada no correr dos anos. Agora, está composta por sete volumes, um deles, com dois tomos.

FM – Tem algum caso que era matéria de jornal?

Armando – Muitas matérias de jornal. Centenas de citações de matérias tratadas na imprensa. Milhares de referências. Mas a matéria que mais impressiona é a que resulta da vida de pessoas extraordinárias, sabe?

FM – Quem fez as ilustrações das capas?

Armando – O Ivan Vasconcellos, o que dá vida ao Váscoli, da Folha da Manhã, e eu participei da elaboração. O método era o seguinte: eu explicava ao Ivan o nome de cada volume; cada volume tem sempre três ‘citações de entrada’, que dizem respeito, exatamente, ao nome do volume e ao seu conteúdo; então, as capas deviam representar o nome do volume, as três citações de entrada e o seu conteúdo. Eu explicava o que eu imaginava para cada capa. A gente ia conversando, ele ia dando ideias, sugerindo alterações, a gente ia se ajustando, e as capas iam saindo! Adoro as capas. Adoro. Eu já conhecia o Ivan, sempre admirei os traços dele, o humor dele, a genialidade dele. Aí, os autores das capas somos Ivan e eu. O Ivan já havia feito para mim as ilustrações de um livro que escrevi em parceria com o Padre Francisco Albertim, por volta de 2006, chamado ‘Justiça, um sonho eterno’, sobre Amós, o profeta da justiça social. Tanto no livro anterior como nesta coleção, as ilustrações são sensacionais.

FM – Tem alguma capa que gostaria de explicar?

Armando – Tenho carinho especial por todas elas. Na capa do volume 1 (‘Da necessidade de controle do poder’), temos o poder representado por um cavalo, que é um instrumento extraordinariamente útil, mas que deve ser controlado pelas rédeas das leis. A capa do volume 2 (‘Dos juízes e do ato de julgar’) tem um ‘juiz marceneiro’, referência a um extraordinário desembargador paulista, José Luiz Palma Bison, que, infelizmente, já desencarnou. Tentei conhecê-lo, mas ele havia desencarnado há três meses de quando fui atrás. Ele fala que o juiz, ao julgar, deve ter o cuidado de um marceneiro, profissional extremamente cuidadoso, vendo nos processos não amontoados de papéis, mas pessoas que vêm até nós assim disfarçadas. Daí, a capa representa o cuidado que o juiz deve ter e, ao mesmo tempo, presto uma homenagem ao Palma Bisson, a quem eu não tive o prazer de conhecer pessoalmente. A capa do volume 3 (‘Tentativas de interferência indevida na função de julgar’), foi inspirada no cuidado que todo juiz deve ter em relação às forças que, indevidamente, podem ‘segurá-lo pela manga’, levando-o a decisões injustas, dentre as quais, a opinião pública, quando inflamada. A capa do Volume 4 (‘Casos demonstrativos da necessidade de se ter juízes independentes e imparciais’) é inspirada num caso famosíssimo de uma jovem francesa, Louise Ménard, que furtou um pão para alimentar o filhinho e a mãe, numa época de extrema escassez na França, e foi processada. O volume 5 (‘Críticas e necessidade de aperfeiçoamento’) é inspirado em “O pensador”, escultura famosa de Rodin. As capas dos dois tomos do volume 6 (‘Algumas reflexões úteis ao ato de julgar’), são “irmãs siamesas”, pretendendo demonstrar os efeitos diversos dos julgamentos que se baseiam exclusivamente na razão dos que se fundam na harmonia do sentimento e da razão.

FM – Existem então diferenças entre os julgamentos apenas com a razão e os julgamentos com razão e sentimento?

Armando – Grandes diferenças. A capa do tomo I, volume 6, representa o julgamento apenas com a razão, que leva, frequentemente, ao rigor excessivo, sinônimo de injustiça, do que se originou o provérbio ‘perfeita justiça, perfeita injustiça’, do senador romano Cícero. A capa do tomo II mostra a diferença. Dizem que, sem amor, a justiça é como terra sem água, não é? Deve haver o equilíbrio entre o coração e a razão, harmonia que vivifica tudo, promovendo resgates, e não naufrágios.
FM – Muito semiótico e pensado de uma maneira clara para o leitor.

Armando – Então, adoro essas capas, o céu é o céu mesmo, verdadeiro, de uma noite de agosto. Eu queria uma noite em que a constelação de Libra estivesse na posição que indicasse o equilíbrio perfeito entre a razão e o sentimento. A noite de agosto foi escolhida por motivos também afetivos: meu primeiro filho nasceu no dia dos pais, agosto, e eu peguei o céu de agosto que tinha o equilíbrio perfeito. O desenho do céu é perfeito, traçado com transferidor de estrelas pelo Ivan Vasconcellos.

FM – Tem outro volume?

Armando – Tem mais um, o volume 7, que é o último, no qual ‘passo o recado’ de como eu acho que nós, os juízes, deveríamos ser. A capa do volume 7 é uma ‘licença poética’, digamos assim, pois misturo as figuras de Amós e dos juízes, que devem ter a ânsia desse profeta, que afirmava: ‘Eu quero, isto sim, é ver brotar o direito como água e correr a justiça como riacho que não seca’. É o sonho que busca realização em trabalho conjunto para que todos nós sejamos, um dia, juízes ideais, juízes justos, absolutamente justos.

FM – O senhor acredita realmente nisso?

Armando – Acredito, sim, com certeza! E trabalho nos volumes com essa crença. Eu acredito que as pessoas todas vão melhorar, de um jeito ou de outro, mais dia, menos dia. Mas, não sendo perfeitos, todos temos ‘espaço’ para desenvolvimento… Então, a coleção foi feita com muito carinho, com a intenção de partilhar, na condição também de eterno aprendiz, e não como quem queira dar lições, mas como quem quer fazer reflexões conjuntas e ações afirmativas, como é do meu convite. Inclusive, é o convite da capa, da aba, o convite para a leitura.

FM – O senhor acha que nesta coletânea está o resultado da sua maturidade?

Armando – Acredito que sim. E do meu desejo de continuar aprendendo sempre, o céu é o limite nisso, não é? Eu acredito que nós vamos progredir continuamente. O limite seria o conhecimento divino, que é inatingível, ainda bem, porque assim nós vamos aprendendo sempre. Eu tentei fazer de uma maneira que o recado seja atemporal e sirva para todas as pessoas que, na esfera de suas atribuições, tomem decisões. Afinal, todos nós, em alguma medida, ainda que com nomes diferentes, tomamos decisões; um professor, um delegado, um advogado, um jornalista, qualquer tipo de profissional, na sua esfera, têm que tomar decisões. Aliás, é impossível a gente não tomar nenhum tipo de decisão no dia a dia. Tentei partilhar, fiz não como quem quer ensinar, mas como quem quer seguir junto guiado por um sonho. E o sonho só tem valor se ele for transformado em realidade, então que essa realidade seja a busca constante de cada um de nós. É isso. Eu me considero o maior beneficiado daquilo que eu tentei fazer, foram madrugadas, alguns falam “noites mal dormidas”, eu digo noites mal dormidas, mas muito bem aproveitadas para mim, para o meu crescimento.

FM – Nesses 20 anos, como era a dedicação do senhor? O senhor tinha um critério ou não? Tinha um insight, ia lá e escrevia, num dia livre escrevia, teve algum esquema?

Armando – Olha, de certo modo, foi acontecendo, mas dentro de uma vontade. O nome é baseado naquele discurso tão famoso do Martin Luther King, ‘nós temos um sonho’. Então, eu explico que o nome tem uma ‘deixa’ do Luther King, eu não tirei de uma cartola, eu me inspirei no discurso dele. Ele tinha aquele sonho de irmandade, de os filhos viverem num país onde não fossem julgados pela cor da pele, e sim pelo caráter. Ora, eu tinha também um sonho e tenho esse sonho da justiça, da fraternidade, e fui escrevendo, comendo o mingau pelas beiradas. Poderia ter contado o sonho em três páginas, ou dez páginas, mas não foi o que eu quis fazer.

FM – Mas o senhor imaginava uma coleção? O senhor já tinha em mente?

Armando – De certo modo, tinha começo, meio e fim. Só que no começo, meio e fim, à medida que eu fui contando, ele foi aumentando. Ele começou com um volume grosso, que gerou três. Então, eu achei que devia dividir um pouco melhor, porque tinha muita história ainda a ser contada. Tudo aquilo que eu falo, tudo aquilo que eu explico, eu tento ilustrar com exemplos muito eloquentes, digamos assim, e algumas histórias se encontravam, de certo modo, perdidas nos arquivos do tempo, né? Essa, por exemplo, do Juiz Alcides de Mendonça Lima, do Rio Grande do Sul, é uma história pouquíssimo conhecida, e é um exemplo de coragem, de senso de justiça, de dever, e contratei uma paleógrafa no Rio Grande do Sul para descobrir para a gente os jornais antigos, os escritos antigos da vida desse juiz, contatei um professor que, muito jovem, foi funcionário, já está aposentado, Rubens Bellora, ele foi funcionário do escritório de advocacia da família desse juiz, que é um juiz que abandonou a magistratura no final do século 19 porque ‘não cabia’ com atitudes que ele considerava injustas, ele não abdicou da imparcialidade e da independência dele, ele foi correto como juiz até o fim. Então, eu quis resgatar, com aquilo que a gente dispunha, a história e a lembrança desse juiz, a coleção foi aumentando à medida que eu fazia, lia e pesquisava, achava interessante dividir outras histórias pouco lembradas, mas dignas de recordação para que a gente se inspire e a gente possa ter como ‘estrela polar’, como um norte na atitude de homens tão ilustres, de pessoas tão ilustres. Aprendendo com os acertos deles e com os seus erros, porque a gente não aprende só com acertos, a gente aprende também, quem sabe, principalmente, com os erros, né? Então foi algo, assim, que deu muito trabalho, porque eu tenho muito serviço aqui no Fórum, então nas horas, eu não vou dizer vagas, porque não eram vagas, foram horas necessárias, mas muito gratificantes pra mim.

FM – E como que a família enxerga essa sua dedicação?

Armando – Todos sempre deram o maior apoio, inclusive com muita compreensão, às vezes nas situações mais estranhas, digamos assim, eu estava lá mexendo com isso, às vezes viajava com eles e eles estavam na distração, na diversão e eu estava em um cyber café, mexendo.

FM – Sempre no computador, papel, quais os meios?

Armando – Sim, livros, livros de papel, livros eletrônicos, a Internet – um instrumento muito útil também.

FM – É possível precificar quanto que o senhor investiu para que a obra fosse feita?

Armando – Olha, é impossível, até mesmo porque teve um ano em que eu comprei muitos livros. Eu sempre comprei muitos livros para escrever isso aqui e para estudar, mas nos Estados Unidos e em outros países, principalmente nos Estados Unidos, e o correio era muito caro, e ainda é, se você quiser receber rapidamente! Então existiam nessa época, basicamente três tipos de remessa uma rapidíssima, uma mais ou menos rápida, e uma normal, a normal morava muito, a rapidíssima, com três, quatro, cinco dias úteis você recebia o livro. Então, às vezes, eu tinha de pedir pela rapidíssima, porque não dava para parar no meio de um assunto que dependia de certos livros que vinham do exterior. Então, ficou muito caro, teve ano em que ficou muito caro! Depois, com os livros eletrônicos estando mais disponíveis, eu passei a comprar o eletrônico, e eu dou preferência ao de papel, então comprava também, quando achava necessário, o de papel idêntico ao eletrônico pelo correio mais demorado, porque eu já tinha a fonte para consulta. Quando chegava, eu passava para o livro de papel, usando também eletrônico, muito útil para a gente pesquisar, você digita uma palavra, ele acha, e você vai no livro de papel. Então assim, enriqueci bastante minha biblioteca, conheci coisas que eu não imaginava, descobri companheiros de viagem que são fantásticos e admiráveis, e reencontrei outros, já antigos conhecidos. Então, para mim, valeu à pena! E eu gostaria de frisar que tentei fazer de modo que não seja útil só para os juízes, mas para todos aqueles que, na esfera de suas atividades, tomam decisões.

FM – Independentemente da profissão?

Armando – Sim, então fiz de um jeito em que uma pessoa leiga em Direito compreenda perfeitamente o que eu quis dizer, que seja útil pra ela também. Porque eu dividi a matéria de uma certa maneira que as pessoas leigas no assunto possam compreender tudo, seja pela linguagem, seja pela exposição. Então, quando a pessoa chegar no volume das ‘Reflexões úteis ao ato de julgar’ e na conclusão, que é o volume 7, vai entender perfeitamente tudo aquilo que eu quis dizer, e aqueles que já são da área, vão entender independentemente da sequência. Só que a sequência tem histórias que eu considero fantásticas.

FM – E podem ser lidos fora da sequência?

Armando – Podem, sim. Eles têm vida própria. Às vezes, eu cito algo que foi visto no volume anterior, mas é um gancho que remete a pessoa àquele volume, mas ela não perde a compreensão na leitura de volume individual ou fora da sequência.

FM – Uma das maiores críticas que a gente vê com relação à justiça é o juridiquês, a linguagem extremamente latinizada e rebuscada. Isso não tem nesse material?

Armando – Pelo contrário, tentei fazer de uma maneira que qualquer pessoa compreenda, e, às vezes, quando dou uma informação um pouquinho mais técnica, coloco uma nota de rodapé explicativa. O meu filho mais velho brinca que eu inventei um tipo novo de livro, que é o ‘livro de rodapé’ porque rodapé é o que não falta, tem rodapé de monte, tem locais onde o rodapé ocupa mais de uma página, duas páginas, três páginas… Então, eu tentei fazer com que a pessoa não precise procurar a fonte citada. Eu já a ofereço, pois eu tenho alguns livros, vamos dizer assim, de certo modo, raros, e na correria cotidiana, você faz uma referência “vide livro tal, de não sei quem”, a pessoa não vai, não tem pra ver, não tem acesso, não está disponível com facilidade na Internet ou ela não tem tempo suficiente pra ficar procurando. Então, eu optei, e deu um trabalho miserável, por deixar na diagramação as notas de rodapé no corpo do texto, abaixo do texto, e não no fim de capítulo ou de volume, porque eu particularmente não gosto. Quando eu pego um livro e as notas estão no final, eu, no começo, vou lá ver a nota, mas quebra tanto o fluxo da leitura que você desiste de ler as notas. Então eu tentei encurtar, de certo modo, o corpo do texto, e lançar nas notas informações que não seriam vitais, embora úteis, para a compreensão do texto. Todas as páginas praticamente tem notas de rodapé, e muitas.

FM – E o senhor foi generoso com o leitor? Porque tem notas de rodapé que o livro tem que vir com lupa, o senhor foi generoso no tamanho da fonte.

Armando – É, eu me preocupei com isso também, em facilitar a leitura. Inclusive, deu muito trabalho na diagramação porque os programas profissionais, quando a fazem, tentam manter as notas o mais perto possível da citação. Só que, como tem muita nota de rodapé, tem muita, o programa começou a deixar buracos entre o texto e a nota respectiva, então tivemos que fazer manualmente o ajuste praticamente página por página.

FM – E quem que diagramou? Quem diagramou um, diagramou todos?

Armando – A coleção passou pela mão de alguns diagramadores. Quem fez a diagramação principal foi um diagramador de Belo Horizonte, e depois a Dora Borges e eu. A Dora mora em Cássia e ela me ajudou a fazer a diagramação. Nós dois aperfeiçoamos a diagramação.

FM – O senhor fez essa coleção e fez o livro com o Padre Francisco. Mais algum?

Armando – Não, estou participando de um projeto em Passos, mas não tem hora definida para sair, não sei como está esse projeto, que é de linha religiosa.

FM – O senhor segue qual linha, é uma doutrina espírita? Cristão? Estou vendo uma imagem de Jesus Cristo em sua sala do Fórum.

Armando – Eu sou espírita, espírita-cristão, como geralmente se diz. Essa imagem ficava no Fórum antigo. Embora o Fórum seja laico, não vejo problema, é um lembrete de que os juízes cometem injustiças…

FM – Pretende dar continuidade a outras obras, podemos esperar uma sequência?

Armando – Eu gostaria de escrever, não como sequência, eu gostaria de trabalhar em dois projetos: um projeto é a respeito de um soldado mineiro, da Polícia Militar, que abandonou a farda porque discordava do tratamento que estava sendo dado a algumas pessoas suspeitas, isso é muito antigo, é um fato da época dos irmãos Naves. E de um escravo, um ex-escravo chamado Nicolau, eu conto a história dele de maneira que eu acho bem suficiente, mas sem tantos detalhes como eu gostaria de dividir, eu conto no Volume 7. Uma história fantástica, pessoa extraordinária, que morreu em Angola, e eu tenho vontade de contatar um historiador lá, famoso lá de Angola, para trocar uma ideia com ele, para saber o que a gente poderia fazer, se seria possível, ainda que seja muito difícil a gente levantar dados sobre esse personagem, mas eu tenho vontade de escrever a respeito. Pessoas que são consideradas, pela sociedade, pouco ou quase nada, às vezes são diamantes extraordinários que passeiam por aí e pouquíssimas pessoas veem, que são exemplos espetaculares. As pessoas têm uma atração, um encanto pelos que estão nos holofotes, que são poderosos, ricos, e às vezes os maiores exemplos estão justamente naqueles que a sociedade como um todo considera ‘os pequeninos’, que são muitas vezes os grandes, na contabilidade divina. E esse Nicolau é alguém que me encantou.

FM – E como que o senhor soube dele?

Armando – Pelos autos da Inconfidência Mineira. É uma história muito bonita, eu não vou contar, senão você não vai ler o Volume 7.

FM – Ainda sobre a linguagem, o senhor tem um estilo próprio de escrita?

Armando – Não, o estilo é perfeitamente na medida em que o meu livro de cabeceira é o Sertão de Veredas, que é uma conversa. Então eu gostaria de estar perto da pessoa para a gente conversar a respeito, eu acho que a construção de um mundo melhor é uma construção coletiva, ninguém vai fazer isso sozinho. Isso é um trabalho de parceria, e sendo um trabalho de parceria, nada melhor do que a gente se sentar e conversar, trocar impressões e trabalhar junto. Tentei fazer, no fim das contas, o que está aqui no convite, é aquilo que eu tentei fazer, é um convite da gente se sentar e conversar. Então, na linguagem, eu tentei fazer isso, fica muito claro isso no Volume 2, na conversa. Eu tentei deixar isso claro, estava conversando com a pessoa, com o leitor.

FM – O senhor acha que o senhor vai incomodar com essa obra a alguns juízes que pensam de forma diferente?

Armando – Em um dos volumes, acho que no Volume 2, transcrevo algumas lições de um jurista espanhol que classifica os tipos mais comuns de juízes, então ele fala no burocrata, no funcionário público, no estrela, no político, no justiceiro, e ele vai explicando as características dos tipos mais comuns, e lá eu faço essa observação: antes da pessoa tentar identificar alguém que conheça, o ideal é que a gente use isso para a autoanálise, para evitar inclusive cometer injustiças. Então, os juízes são seres humanos.

FM – Tem uma fala de que juízes não se acham Deuses, têm certeza.

Armando – Sim. Então eu exponho qual é o juiz ideal, na minha opinião, no Volume 7. O único juiz justo que eu conheço é Jesus Cristo, os outros são aprendizes. Eu conheço muitos juízes extremamente dedicados, com uma sede de justiça impressionante, conheço muitos. Sempre existirá espaço para aperfeiçoamento, porque enquanto nós não formos perfeitos, existe espaço para isso, para o crescimento. Mas eu conheço muitos juízes espetaculares, juízes em cujas mãos eu deixaria a minha liberdade, a minha vida, sem inquietação, não vou citar nomes aqui porque eu acabaria cometendo a injustiça de não citar os outros, mas existem juízes espetaculares. Agora, a leitura do Volume 7 vai deixar bem claro aquilo que eu acho que seja o juiz ideal, e não vou ter a pretensão de dizer que eu sou, porque não sou, mas eu tento melhorar, tento fazer o melhor possível, mas ciente das minhas limitações.

FM – Existe algum conflito ou apoio pelo fato de o senhor praticar uma doutrina que prega tanto essa coisa da justiça, da fraternidade, da irmandade? Isso é conflito ou é apoio na magistratura?

Armando – É apoio, porque faz com que eu tente sempre ter o cuidado que eu gostaria de merecer. Eu não tenho a intenção de fazer uma produção em linha de montagem em massa, cada caso é um caso, eu sei que do outro lado da mesa está alguém de carne e osso e que as minhas decisões vão ter repercussão, não apenas na vida da pessoa, mas no entorno cujo tamanho não dá pra calcular. Então eu sei que são pessoas, ainda que eu não as veja, dependendo da situação, vêm papéis, agora vêm no computador, né, eu sei que aquilo ali representa gente de carne e osso, e eu tento fazer com cuidado o que eu gostaria de merecer. Então não, para mim não é conflito, é um acréscimo de responsabilidades.

FM – Algum sonho que ainda o senhor queira realizar?

Armando – Eu gostaria de conhecer alguns locais que eu cito nos livros, como Alcobaça, em Portugal, o túmulo de Inês de Castro e Dom Pedro, eu cito, é a última história do Volume 1, eu gostaria muito de ir lá. Também na Itália tem muitos lugares que me trazem, assim, emoções muito fortes pelas histórias ali passadas. O mundo é muito bonito, feito Guimarães Rosa diz, o mundo é mágico. Então se a gente souber buscar a inspiração adequada, esses locais são muito ricos, a lembrança desses locais já é tão poderosa, imagino estando lá.

FM – E por acaso não tem vontade de ir aos degraus do Lincoln Memorial em Washington, D.C onde foi feito o discurso de Martin Luther King?

Armando – Não, engraçado que eu não tenho vontade de ir lá porque o discurso dele já é tão poderoso que ecoa pelo planeta inteiro, é um discurso extraordinário, então para isso não preciso ir lá, porque ele veio aqui!