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Desalento

21 de Maio de 2020

Deixarmo-nos dominar pela cólera, equivale a sofrermos como justos o castigo reservado ao pecador” – Jonathan Swift.

Enquanto o mundo vive a tragédia de uma pandemia que parece não ter fim, aqui no Brasil o show de horrores possui incrementos que fazem tudo se tornar mais difícil, ampliando ainda mais a grave crise que se inicia na Saúde com a interrupção de milhares de vidas e se estende para os riscos de colapso econômico e convulsão social.

Primeiro a corrupção endêmica que tal qual uma metástase se espalha por todo o tecido social, neste momento de concentrar esforços e recursos para combater o covid-19, apresenta-se agora desviando recursos públicos, superfaturando aquisições de equipamentos como respiradores e insumos que a duras penas e com sacrifício de um país inteiro foram alocados para o combate à doença.

Observem que toda a população mudou sua postura e hoje ninguém mais reclama das deficiências do sistema público de saúde, da segurança pública sucateada, de obras públicas necessárias nunca realizadas, dos buracos nas ruas e de nenhuma outra demanda que merece uma atenção maior dos gestores e fica sempre relegada a um segundo plano.

Por perceber o clima soturno que assola a humanidade, as pessoas parecem dar uma copiosa trégua aos reclamos justos que possuem, compreendendo a severidade do momento e a necessidade de nos unirmos em uma só corrente lutando no mesmo combate. No entanto, o descaramento dos políticos parece ser infinito e sua atuação incessante. Continuam a nos roubar achincalhando com o sofrimento alheio, navegando nas ondas da impunidade.

Mas este não é certamente o problema maior que o Brasil atravessa. Atravessamos um período da política nacional no qual sobressaem a intolerância e a agressividade dos debates políticos infecundos e infectados de verrinas políticas.

De um lado, a esquerda que governou o país por mais de vinte anos e apeada do poder, como já disse aqui algumas vezes, parece se perder em atacar sem nenhum objetivo claro senão o de tentar diminuir, desmoralizar e até mesmo ridicularizar os governantes. Somos obrigados a assistir alguns personagens criticando ferozmente aquilo que praticaram quando governavam, como se a eles fosse permitido, mas agora não. Inversão de pontos de vista e acabam partindo para atitudes extremadas e radicais, contaminando uma militância que também não consegue perceber os erros praticados, negando o inegável e mostrando seu cabal fanatismo.

Virando o lado do disco, nada é muito diferente. A direita assume o poder invertendo as posições, também está na linha de frente de patrocínio ao ódio político, enxergando conspiração em tudo o que acontece, como se seus líderes fossem infalíveis e são capazes de idolatrar até mesmo as lambanças do governo que defendem. Esta semana assisti atônito, militantes provavelmente contratados, uniformizados e acenando bandeiras com uma moça usando um megafone, usando palavras de ordem contra o comunismo e denunciando uma teoria da conspiração em prol do impeachment do Presidente. O que assusta é a prática de atos como este, que fazem lembrar uma organização extremista cuja sigla era TFP, que usavam de táticas semelhantes e que hoje não mais surtem o efeito desejado.

Nas redes, este embate insano toma forma cada vez mais acirrada como se estivéssemos em brancas nuvens e devemos prosseguir chamando um de comunista e outro de fascista, um de ladrão e outro de homofóbico, e seria esta a contribuição que os políticos devem dar neste momento?

Por fim, não poderia deixar de analisar a postura do atual governo e especialmente do presidente Bolsonaro. Espera-se de um Presidente da República muito mais do que o atual tem apresentado. Já nem falo mais da impostura de suas falas nas entrevistas matinais, muito menos de suas bravatas e frases mais cabíveis em conversas de botequim. Apesar de isto ser condenável, não é essa a pior das suas mazelas. Seu governo nem precisa de oposição, uma vez que as crises são provocadas pelo próprio presidente, incapaz de liderar sua equipe de governo e agir como se estivesse administrando uma equipe de ‘chapas’ em um cais de porto no Rio de Janeiro.

Vejamos apenas os últimos acontecimentos em plena crise: demite o ministro da Saúde de forma pirotécnica, divergindo da condução da política de saúde, mas o caminho que aponta não tem nenhuma consistência técnica, nem mesmo de observar o que acontece no mundo e em especial nos países que tiveram sucesso em suas medidas para definir em harmonia com sua equipe o rumo a ser tomado. Ninguém discute as seríssimas preocupações com a economia, mas temer pela própria vida é atitude natural de todos. Mandetta foi vítima de uma fritura humilhante e nada disso seria necessário.

Para não sair da área da Saúde, o novo ministro, um técnico respeitado e sério, inicia um plano para que consigamos conciliar proteção à população com retomada da economia, quando é surpreendido com noticias da imprensa de que mudaria o protocolo de uso da cloroquina quando, como médico, ainda não tinha segurança de que este seria o caminho mais prudente. Nova turbulência desnecessária e gerada pelo insucesso em exercer liderança.

Por fim, a demissão de Sérgio Moro. Toda esta sucessão de problemas acontecidos abrem as vísceras de um governo que ainda não conseguiu formar uma equipe coesa e centrada em um objetivo de governo. Inegavelmente foi inicialmente composto com ótimos nomes e caberia ao presidente da república a missão de harmonizar seu time.

Sérgio Moro por sua vez, se mostrou pouco afinado com a ética e passou a agredir e desestabilizar o governo, agravando a crise e mostrando que no mínimo prevaricou, porque conviveu com aquilo que denunciou no mais completo silêncio até ser demitido.

GILBERTO BATISTA DE ALMEIDA, é engenheiro eletricista e ex-político