Dia a Dia

Viva 14 de maio

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS

4 de junho de 2021

“Se vocês não ficarem quietas agora, não vamos mais passear em Ribeirão Preto!” Era assim que minha mãe costumava pacificar nossas brigas de irmãs.

Uma vez por ano, sempre no dia quatorze de maio era festa em Passos e na minha família. Enchíamos o nosso Fusca 1979 com muita alegria e biscoito seco para fazermos a viagem dos nossos sonhos, nossa Disneylândia ficava bem mais perto, apenas cento e cinquenta quilômetros de Passos.

Nem bem chegava na AABB já perguntávamos: “ Pai, quantas cidades faltam pra chegarmos em Ribeirão Preto?” Para nos distrair durante o percurso, ele criava uns desafios, vencia o duelo aquela avistasse a maior quantidade de Brasílias vermelhas, Kombis cinzas, Belinas laranjas ou quem conseguisse ler o maior número de placas de trânsito durante o trajeto da viagem. E o tempo passava sem a gente perceber.

Ao passarmos por Brodowski, ele insistia em contar histórias sobre um famoso artista local, mas quem poderia se interessar em Cândido Portinari quando as escadas rolantes das Lojas Americanos nos aguardavam?.

A barriga ficava geladinha na hora que entrávamos na Avenida Saudade, havia um itinerário a ser cumprido com fidelidade naquela cidade.

A primeira parte da viagem era péssima, existia a obrigatoriedade de visitar uns amigos de meus pais, mamãe argumentava conosco que amizade é que nem planta, tem que cuidar.

Eu e minhas irmãs detestávamos a visita, era um lugar triste. A casa deles não tinha olhos, apenas uma boca enorme que nos engolia para dentro de uma sala cor de sangue ressecado, no teto sem forro e sujo de teias de aranha titubeava uma luz pendurada num fio marrom, o seu movimento formava umas sombras esquisitas nas paredes.

O povo da casa também era triste, uma família de dois irmãos solteiros, sem a graciosidade de um toque feminino nos panos de prato da cozinha. Um deles, o mais amigo de papai, ainda sofria a humilhação de uma doença que o matava aos poucos(assim me disseram), o homem ficava dia e noite entrevado numa cama com colchão de palha, a cada mexida parecia o som de um lagarto fugindo num campo seco.

O quarto do amigo do papai era pequeno e sem porta. No momento da visita, a família enrolava a cortina de chita que servia de biombo, o homem continuava na cama barulhenta e meus pais sentados na cozinha em tamboretes encapados com couro de vaca. Eles lembravam histórias do passado, de criança, de juventude, as coisas que faço nesse texto se vocês estão tendo a paciência de lê-lo até aqui. Às vezes o homem na cama barulhenta gargalhava, o que parecia uma fuga em massa de lagartos num campo seco.

A nossa única diversão ali era esperar um palavrão do papagaio desbocado e comer açúcar cristal na caneca de alumínio mal areada. De resto era torcer pra acabar logo com aquilo e passar para a parte boa da viagem.
Depois da obrigação cumprida, o resto era festa, não víamos a hora de brincar nas escadas rolantes das Lojas Americanas e comprarmos aquilo que nos fariam as mais modernas de todas as mulheres do mundo. Era um luxo pagar o almoço dos meus pais no Pinguim com umas moedas de chocolate simulando dinheiro de verdade e depois dar umas baforadas para o alto com um belo cigarrinho de chocolate Pan. Mamãe dizia que fingir fumar também era pecado, mas a televisão falava que era charmoso. Daí, a gente ficava com o glamour.

Depois a gente ia para o Bosque ver os animas em cativeiro e para o Aeroporto assistir às decolagens e pousos dos aviões sonhando com o dia em que seríamos as passageiras ou se tivéssemos muita sorte na vida as aeromoças.
A viagem também incluía uma boa compra de supermercado, mamãe sempre foi generosa para comprar alimentos.

Certo dia no Supermercado Jumbo Eletro, distraí-me na gôndola namorando uma conga (uma espécie de calçado infantil) estampada de cachorrinhos. Quando percebi que estava perdida, a minha única reação foi um choro tão intenso que não consegui engoli-lo nem para dizer meu nome para o Gerente do Supermercado. Fui anunciada no microfone como uma menina magricela de óculos. Logo os meus pais apareceram para acabar com aquele suplício.

Junto com abraços e beliscões ganhei também a conga estampada de cachorrinhos e uma história de dúvida que me acompanhou grande parte da vida. Papai dizia que havia me comprado naquele dia no Supermercado Jumbo Eletro. Será?

Voltávamos para Passos com o carro lotado do bolachas Mabel , caixas de uva Niagara compradas na estrada e muitas histórias no coração.

Depois de muitos anos de terapia, nessa busca constante pra tentar se conhecer um pouco mais, uma pergunta me assombra até hoje: qual seria a bendita seção ou a bem-aventurada gôndola do Jumbo Eletro em que eu estava quando papai me adquiriu?” Não faço a menor ideia…

 

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. E-mail: [email protected] gmail.com