Dia a Dia

Universitários analfabetos funcionais

MARCUS VINÍCIUS DE SOUZA

6 de abril de 2022

Parece mentira, mas não é. Estou falando do resultado publicado recentemente pelo Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf) que aponta que 38% dos universitários do Brasil são considerados analfabetos funcionais. Isso significa que os estudantes são capazes de ler e escrever, mas não sabem interpretar nem agregar informações.
Isso é uma prova nítida que, apesar do aumento da escolarização da população brasileira, esse plus não se refletiu em maior preparo e qualificação dos alunos. Ou seja, a expansão do Ensino Superior (com oferta de programas de incentivo e maior democratização do acesso às universidades) não tem refletido um ensino de qualidade.
As consequências para o analfabeto funcional são várias: além de ter uma formação bastante deficitária, haja vista que não vai conseguir ler nem interpretar textos acadêmicos, terá muitas dificuldades para exercer a própria profissão.
Além disso, se conseguir um emprego cujo diploma universitário seja um pré-requisito, alguém que esteja na condição de analfabeto funcional pode colocar em risco a própria carreira ou ainda trazer algum risco direta ou indiretamente à sociedade, na medida em que responderá como um profissional especializado em certa área sem ter condições de analisar um relatório, por exemplo.
Assim, a falta de compreensão do que lhe é pedido torna-se um problema que impacta as várias camadas da sociedade, da escola ao mercado.
Em contrapartida, vale ressaltar que houve um boom no ingresso dos estudantes em instituições de Ensino Superior, tendo como força motriz a expectativa de melhorar o rendimento, bem como atingir estabilidade financeira, já que a educação ainda é uma forma de ocupar cargos melhores no mercado de trabalho. Com isso, entende-se que a educação teve papel essencial na queda da desigualdade social e no crescimento da classe média no Brasil. Afinal, de acordo com estudiosos do tema, o que define basicamente a classe social à qual o brasileiro pertence, até mais do que o poder aquisitivo, é a escolaridade.
A presença de uma prova de redação, cuja correção seja justa, será um bom indício para verificar se alguém se insere no quadro de analfabeto funcional. Os resultados são vistos constantemente: no último Enem, que tem a prova de redação como requisito obrigatório, apenas 22 dos inscritos tiraram a nota mil na etapa. Outros 96 mil estudantes zeraram a prova que mede a qualidade da escrita e argumentação dos candidatos. O balanço do último exame foi divulgado pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) recentemente.
Os dados sobre o Enem 2021 trouxeram outra informação alarmante: o principal motivo pelo qual os alunos tiveram suas provas zeradas foram as redações em branco.
Em segundo lugar, a fuga ao tema foi o que mais anulou a redação dos estudantes. As outras desclassificações contemplam ainda a cópia do texto motivador, texto insuficiente, não atendimento ao tipo textual, parte desconectada, e outros motivos que demonstram a defasagem escolar do jovem brasileiro.
O conceito de analfabetismo funcional foi criado na década de 30, nos Estados Unidos, e depois passou a ser utilizado pela Unesco para se referir às pessoas que, apesar de saberem ler e escrever formalmente, não conseguem redigir um texto de forma correta nem uma pequena mensagem, solicitando um emprego, por exemplo.
No Brasil, o analfabetismo funcional é atribuído às pessoas com mais de 20 anos que não completaram quatro anos de estudo formal. A ideia de analfabetismo funcional varia de acordo com o país.
A triste realidade é que, em pleno século XXI, existem em todo o planeta cerca de 750 milhões de adultos e jovens que ainda não sabem ler nem escrever. Triste realidade.

MARCUS VINÍCIUS DE SOUZA, escritor, professor, músico, mestre em Estudos de Linguagens e Oustanding Educator pela Universidade de Chicago – Estados Unidos.