Dia a Dia

Uma menina curiosa

POR PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS

15 de julho de 2021

Curiosidade mata.” Nunca entendi muito bem essa frase, mas era uma forma de mamãe me dizer para não a aborrecer com as minhas perguntas, enquanto ela tinha assuntos domésticos para resolver.

Mas, como sossegar uma mente curiosa de criança? E eu seguia no meu interrogatório, só que com papai.

Ele possuía um jeito muito simples e sagaz para saciar minhas dúvidas. Lembro-me do dia em que perguntei:

– Pai, é verdade que Deus sempre existiu?

– Sim, minha filha, Deus é eterno. Emendei:

– Então, se Ele sempre existiu, por que Ele não criou o mundo antes?

Com sua didática ímpar, devolveu-me a pergunta:

– Antes? Antes do quê?

Até hoje não encontrei uma resposta à altura para rebatê-lo.

Outras vezes, ele me respondia com comparações simples, retiradas do cotidiano, como quando eu quis saber sobre os “temperamentos” diferentes dos animais.

Sempre me intrigou o escândalo que o porco faz na hora da morte, a gente ouvia a quilômetros de distância quando o vô Chico ia sacrificar um deles (antes que algum defensor dos animais venha com suas verdades, o abate era para comer e para fazer sabão). Já as ovelhinhas, iam para a morte silenciosas como Jesus, conforme a minha professora havia me contado.

Mais uma vez, com sua pedagogia sensacional, papai usava a reação dos animais no momento da morte para falar sobre a diversidade e as diferenças existentes no mundo. E ainda completava: “você, minha filha, é enfastiada, magrinha e de óculos, já sua irmã é comilona, gordinha e sem óculos; e mesmo diferentes, vocês duas são importantes para o mundo, assim como o porco e a ovelha também são”.

Fiquei muito feliz com a resposta. O mundo se importava comigo.

Porém, havia uma resposta de papai que nunca me satisfazia por completo. Acontecia quando eu queria saber de qual maneira os bebês eram feitos.

Na estória da cegonha acreditei por pouco tempo, considerando que nunca vi uma com bebê no bico cruzando o céu da manhã. Também não fazia sentido as crianças dos orfanatos, seria uma falha na bússola(ainda não existia GPS) das cegonhas que entregavam os bebês nos lugares errados?

A versão de colocar uma “sementinha dentro da barriga da mamãe”, achei mais poética e a perpetuei para as amigas. Sentia-me a detentora de toda sabedoria do mundo. Mas sempre pintava uma curiosidade: se os papais por um equívoco, no lugar de crianças, plantassem uma semente da mangueira de Dona Corina na barriga das mamães? Alguns bebês nasceriam com cara de manga espada?
Também comecei a desconfiar dessa estória.

Até que, certo dia, uma amiga me contou sussurrando que estudaríamos sobre “aquilo” na aula da sétima série (estávamos no terceiro ano primário). E que “aquilo” era algo relacionado com a chegada dos bebês. Falou também que o local para se fazer “aquilo” chamava-se motel.

Fiquei intrigada com o melindre para se falar de algo tão feliz como o nascimento de um bebê.

E pensei numa maneira oblíqua para saciar minha dúvida junto ao papai, era só perguntar para ele o que era motel, então receberia de bônus(e sem ele perceber) a informação correta sobre o tal “aquilo” e sobre como os bebês entrariam na barriga das mamães. Bingo!
E assim fiz, certa de que sairia dali com quase um pé no mundo dos adolescentes. Até que veio a resposta sem graça, disse-me que “motel era um lugar onde se passavam poucas horas”. Insisti.

– Ahn? Só isso?

E ele com toda calma:

– Sim, minha filha, só isso.

– Ah, tá.

O assunto morreu por muitos anos.

Só fui saciar a minha curiosidade infantil na adolescência, e não com meu pai. Como a maioria das meninas daquela época, aprendi sobre “aquilo” na escola e com amigas.

A sensibilidade de papai permitia-lhe que enxergasse a maturidade das filhas para instruí-las no momento adequado. Apresentava-se sempre disponível e tranquilo para nos dar respostas, qualidade concedida apenas aos grandes mestres.

Penso no dia em que o meu pequenininho curioso me fará a pergunta: “Mamãe, como os bebês são feitos?” Só espero conseguir, assim como o meu pai, ter com o meu filho esse sereno olhar de mestre.

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais.