Dia a Dia

Uma ideia genial

POR PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS

8 de julho de 2021

A prova devia estar bem difícil. Foi o que deduzi quando os colegas saíram do laboratório com cara de velório. Na primeira vez que entrei no laboratório de anatomia encontrei duas dificuldades. A primeira foi dissociar aquelas cabeças fedendo formol de alguém que já havia sido filho, pai ou irmão de outro alguém. A segunda dificuldade foi lidar com a feiura do professor. O rosto encovado e os olhos de morte eram facilmente confundidos com os crânios a serem estudados.

Superei a primeira dificuldade em nome da ciência, o cadáver para estudo nos tornaria cirurgiões dentistas. Já o feiume do professor, só perdoei depois que descobri sobre sua recente tragédia pessoal. De certa forma, ele descontava seu ressentimento nos calouros do curso de Odontologia e as provas eram seus instrumentos de tortura. Por isso, naquele dia, estávamos a mil. Coração disparado, boca seca, dor de barriga e outros sintomas que cada um manifesta nos momentos de pressão.

Éramos trinta alunos, divididos em dois grupos. Fiz parte do último. A comunicação entre os grupos era proibida, por isso aqueles que finalizavam a prova deveriam sair imediatamente do laboratório , do prédio e de preferência do Campus. A avaliação final consistia em dez perguntas (dez crânios) espalhadas pelas bancadas do laboratório. Uma sineta tocava e indicava o momento de trocarmos de questão.

Primeiro crânio: glabela, segundo crânio : osso zigomático…Olhei para uma colega burrinha que já havia respondido duas questões inéditas para mim e seu sorriso me confirmou que nosso professor havia feito as pazes com o mundo. A prova estava “baba”. Pensei por qual razão os colegas do grupo anterior teriam saído tão tristes de uma prova fácil.

Soou a última sineta, final da prova. Com uma alegria sutil (afinal, as tragédias também acontecem na vida dos outros), o professor nos contou que um colega havia falecido. Pela ansiedade de fazer a prova, não percebemos a ausência do Rogério. Foi um chororô, os colegas do grupo anterior nos esperavam para chorarmos juntos. Aos dezessete anos de idade, só era permitida a morte de gente muito velha, acima de trinta anos, não de um adolescente.

As poucas notícias do acontecido eram incertas, não existia celular e telefone fixo era luxo em república de estudante. Por isso, saímos procurando o defunto nas noites frias da Capital Mineira. Uma colega fez uma concessão e colocou sete meninas no seu Chevette, eu também fiz e emprestei meu casaco de estimação para uma amiga desprevenida. Fizemos um tour por todos os cemitérios de Belo Horizonte e nada de encontrar o morto.

Voltei para casa arrasada, não dormi e chorei pelo Rogério, por sua família, pela juventude interrompida, pelos sonhos desfeitos e pelo meu casaco de estimação que minha amiga esqueceu num dos cemitérios visitados. No outro dia, fui almoçar no refeitório da Faculdade. Estava na fila distraída, esperando a minha vez para ser servida, quando ouvi atrás de mim: “Oi Patrícia, como foi a prova de anatomia?” Eu conhecia aquela voz e gelei. Virei-me e dei de cara com o Rogério. Acho que fiz a pergunta mais idiota de minha vida inteira: “Uai, cê não tá morto?

Ele deu um sorrisinho sem graça e pediu para a servente colocar mais feijão no prato dele. O resumo da história era que o cara em vez de matar a vó, o vô, o tio ou a tia para não fazer uma prova para a qual se julgava despreparado, teve a ideia genial de matar a si próprio. O final foi bem mais leve do que eu gostaria, o Rogério perdeu o respeito dos colegas e um semestre do curso. Mas, por minha noite insone, pelas lágrimas derramadas e pelo casaco de estimação perdido, penso que a guilhotina seria muito pouco para ele.

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais.