Dia a Dia

Uma crônica Natalina

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS

23 de dezembro de 2021

Descobri que Papai Noel não existia num vinte e cinco de dezembro ensolarado.Eu sempre preferi o almoço de domingo à véspera de Natal, é que naquele dia, as crianças se juntavam para exibirem os seus presentes.
Na véspera do natal, a gente se reunia na casa da vovó, cada família levava uma comida boa para compartilharmos, colocávamos a prosa em dia e revelávamos um amigo oculto comprido (quase 60 pessoas), salvava a noite, sem ele, a nossa festa não duraria nem uma hora. Presumo que era por ser regada apenas por “comes e converses”, não havia álcool e nem música.
A conversa familiar era muito boa, mas duro era segurar o botão da saia e os olhos abertos depois de três pratos de salpicão das tias Pereiras. Por isso, sempre preferi a reunião do dia vinte e cinco, que era para comer a soca (sobra da ceia natalina) da noite anterior e para as crianças usufruírem dos seus presentes.
Naquele vinte e cinco de dezembro, enquanto as crianças passavam por mim com a superioridade indecente de proprietárias de uma Caloi, eu acanhada ficava assentada  na calçada com o meu presente de natal no colo. Era uma boneca que  tinha uma rodela nas costas, se eu a girasse no sentido horário o cabelo da boneca crescia, e se fosse no  sentido anti-horário as madeixas loiras encurtavam. O brinquedo era isso, nada mais do que isso.
Enquanto um primo tirava uma fina das minhas pernas com a bicicleta nova, o outro zunia com o skate na calçada e a amiga fazia graça girando com os patins na minha frente, eu apenas girava a bendita rodela nas costas da boneca para ver o cabelo dela  crescer e diminuir.
Cheguei a desejar uma chuva torrencial para eu ostentar o meu presente no aconchego do sofá, mas não havia nuvens no céu e amarguei a dor da inveja, tentando convencer a mim mesma que o meu presente era o mais legal de todos.
Bem que os Guelfos poderiam ter extraviado a minha cartinha, bem que o Papai Noel poderia ter presumido a minha raiva por não conseguir dar a volta no quarteirão com a mesma agilidade dos meus amigos e seus brinquedos..
E quando eu não suportava mais a humilhação de ficar trocando de garupa na bicicleta dos outros, fui reclamar do presente para mamãe e mostrar o dedo esfolado pelos giros incessantes na rodela.
Ela poderia ter ficado só no pito sobre a importância de se ter um coração grato, mas emendou sem noção: “Oh- Mi-nha fi-lha, você deve escolher melhor os seus presentes, pois todo natal eu e seu pai sofremos para  encontrá-los.”
Olhei para aquela boneca antipática e entendi tudo, compreendi que ela não tinha chegado num trenó puxado pelas renas. Fiquei muda, pensei que mamãe fosse fazer mais revelações, algo sobre o coelhinho da páscoa, mas ela apenas pegou a bonequinha e me ensinou a fazer tranças.
Querido leitor, às vezes, penso que assim como fiz com a bonequinha, não valorizo o maior Presente que já ganhei na vida. Já tentei unir as pontas da trança do Cristianismo com ideias, conceitos e preconceitos que se tornaram maiores do que o Meu Senhor ; hoje, entendi que no Natal celebro a presença dEle comigo num relacionamento de amor explicado somente pela  cruz do calvário. Feliz Natal!

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. E-mail: [email protected] gmail.com