Dia a Dia

Um segundo provérbio russo

LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO

21 de junho de 2021

“É inútil preocupar-se com os cabelos, quando se está prestes a perder a cabeça.” Há momentos na vida que expressam bem o significado desse provérbio russo. Alguns exemplos: não posso usar calças, porque não tenho cinto; não posso ir à missa, porque não tenho sapatos; não posso ajudar ninguém, porque sou pobre. O que é mais importante: a calça ou o cinto? A missa ou os sapatos? O provérbio fala também para quem grita, porque alguém deslocou o pente; ou ameaça matar, porque alguém lhe “fechou” o carro; explode em cima da mulher, porque a gravata está amarrotada. Há outro provérbio parecido: Por que se preocupar com os anéis, se você vai perder a mão? Na verdade, o provérbio nos adverte a considerar a proporção das coisas. – Frei Clarêncio Neotti, OFM

Entendo que os provérbios são verdadeiras fontes de sabedoria, que procuram fazer a pessoa pensar. Este provérbio russo mostra que estando alguém a ficar nervoso, raivoso, a explodir nas suas atitudes, enfim, estando a perder a cabeça, de nada adiantará preocupar-se com os seus cabelos. Se a cabeça explode, os cabelos estão nela, irão juntos, ou seja, a pessoa ficará realmente descabelada ou os cabelos ficarão arrepiados.

O frei dá alguns exemplos para explicar o provérbio. Tento interpretá-los. Não posso usar calça porque não acho ou não tenho cinto para prendê-la na cintura. Não tenho ou não acho meus sapatos, portanto, não posso ir à missa. Sou pobre, também não tenho como ajudar ninguém, estou numa pior! São situações que irritam, desagradam e provocam revoltas na pessoa e a deixam nervosa. Em vez de procurar soluções, a pessoa simplesmente dá uma dimensão exagerada à situação e faz uma tempestade em copo d’água. Se ela tivesse apenas o cinto, não seria pior? A missa, para o católico, não seria mais importante que os sapatos? Será que alguém é tão pobre que não possa nem dar uma palavra de conforto para o outro? O pente não está no lugar de sempre, é motivo para se irritar e até gritar ou brigar? No trânsito, alguém dá uma fechada no carro, às vezes, sem intenção e sem consequências, é motivo para brigar? Se houver consequências com danos de pequena monta, não dá para resolver pacificamente, dentro dos trâmites legais? Mesmo que haja consequências danosas, até com ferimentos, não é melhor resolver tudo dentro da lei? Quantas mortes já ocorreram por questões de desentendimento no trânsito! A gravata que será usada está amassada, amarrotada, é preciso esganar a esposa, gritar com ela, ofendê-la? O frei ainda cita outro provérbio, dizendo que não é preciso se preocupar com os anéis se você vai perder a mão. Há também uma outra versão dizendo que é melhor perder os anéis que perder os dedos.

Enfim, é preciso procurar o equilíbrio na vida, por maior que sejam os problemas que enfrentamos. É necessário buscar equilíbrio para solucionar os aborrecimentos que a vida nos proporciona. Há, realmente, situações muito difíceis na vida de uma pessoa que parecem só ter soluções muito remotas ou quase impossíveis. Há casos que levam a pessoa para um desequilíbrio tão forte que, chegar a perder a cabeça é uma consequência inevitável, ou quase! Ajuda de familiares, colegas, amigos é bem-vinda, desde que eles estejam bem-intencionados. Profissionais especializados em tratamentos psicológicos, emocionais, também são recomendáveis. Quanto maior for o equilíbrio emocional de uma pessoa, maior será a possibilidade de não entrar em “pânico”, de não se aborrecer facilmente. Assim, não criará uma dimensão inexistente nos problemas e aborrecimentos que acontecem. Não há vida que não tenha problemas, desgastes, nem tudo são apenas prazeres, não se vive em volta de rosas apenas, há espinhos também! Enfim, não adianta ter uma bela e vasta cabeleira, pois, perdendo a cabeça com situações que possam ter soluções, mesmo que complicadas, a cabeça rola e ela vai junto. Pensar, raciocinar, acalmar-se, procurar soluções inteligentes, mesmo que difíceis, é o caminho correto. Sei que é fácil aconselhar, mas, haverá outros caminhos? De que vale perder a cabeça, quando há, na pior das hipóteses, uma chance de solução que possa evitar desfechos desagradáveis ou catastróficos?

LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO, professor de oratória e de técnica vocal para fala e canto em Carmo do Rio Claro/MG, ex-professor do ensino comercial com reg. no MEC, formado no curso normal superior pela Unipac. E-mail: [email protected]