Dia a Dia

Um segundo provérbio brasileiro

LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO

29 de novembro de 2021

“Em casa de ferreiro, espeto de pau”. O provérbio é brasileiro, mas todas as culturas têm frases que expressam ironicamente a mesma verdade. Aliás, uma verdade bastante larga, porque o provérbio pode significar o não uso dos próprios bens, a não valorização dos próprios dons. Mas pode significar também que em boa família apareça um bandido; o padre, que vive falando da confiança em Deus, pode desesperar na hora da desgraça; o filho do diretor do maior colégio da cidade pode não passar no vestibular. Todos conhecemos situações parecidas. O provérbio pode também ser entendido como conselho: cada um se defenda com os meios que tem à mão, porque eles são os melhores, já que os outros não estão ao alcance da mão. – Frei Clarêncio Neotti, OFM – (folhinha do calendário do SCJ, do dia 24/10/2021

Este provérbio aí eu conheço desde quando era quase adolescente. Acredito que não haja um brasileiro que não o conheça. Como os provérbios são uma fonte de sabedoria, mesmo que popular, eles também, ao menos para mim, constituem um pensamento filosófico, uma filosofia popular. Assunto bastante comum, tem razão o frei quando afirma que todas as culturas têm o mesmo provérbio, cada uma com suas palavras e expressões próprias. É muito comum também as pessoas não utilizarem os seus próprios meios ou bens e os seus dons quando necessários usá-los. Preferem fazer um arranjo qualquer, um quebra-galho, um expediente improvisado para resolver determinadas situações, quando poderiam parar, pensar e encontrar uma solução melhor. Talvez seja por isso que o brasileiro tem aquela fama de usar, quase um provérbio também, o famoso “jeitinho brasileiro”, que nem sempre dá certo. Geralmente é pura e mera improvisação jogando com a sorte, que pode virar puro azar. É um jogo! A preguiça também, às vezes ajuda (ou atrapalha?). Melhor: ajuda a atrapalhar! Vamos a um exemplo: preciso colocar um prego na parede e o martelo não está à mão. Preciso buscá-lo, mas passo a mão em qualquer objeto perto de mim, que calculo poder substituir a ferramenta e tento fazer o serviço. Resultado: estrago a parede. Pode acontecer, é claro! O frei acha que em uma boa família, um dos membros pode desviar-se do bom caminho, tendo o fato a ver, de certa forma, com o provérbio. A família é boa, não poderia ter um membro seu fora dos padrões. Ou seja, é uma casa de ferreiro que só poderia ter espeto de ferro. Um espeto de pau não poderia se alinhar com os outros membros e só faria a família passar vergonha. O padre que prega a fé, a confiança em Deus e num determinado momento de dificuldades perde ele mesmo a sua própria fé. O filho de um diretor do maior colégio da cidade ou região que não consegue passar num vestibular. É claro que as situações apresentadas são hipotéticas, mas também poderiam ser reais. Acredito eu que o frei fez uma analogia, para pensarmos sobre a abrangência do provérbio.

Ele termina dizendo que cada um utilize os meios disponíveis para se defender das incômodas e desagradáveis situações da vida. Se os meios necessários não estão disponíveis, que sejam aproveitados os que estiverem às mãos. Seria mais ou menos o caso do famoso “jeitinho brasileiro”, como já citamos aqui? Acredito que sim, poderíamos até improvisar, mas com calma e inteligência.

É importante esclarecer que não estamos falando de situações perigosas, como um assalto à mão armada. Aí, nada de querer resolver, inventar ou achar que o “jeitinho brasileiro” resolverá. Não se deve arriscar a jogar com a vida. O bandido, geralmente, está drogado e até nervoso também, não conta com a própria vida.

Termino contando um pequeno episódio, sem citar nomes. Um cidadão, observando um médico cardiologista fumando, questionou o fato, dizendo-lhe: “ – O senhor, melhor que ninguém, sabe os riscos do fumo para a saúde e mesmo assim pratica tal vício? O médico, sem “pestanejar”, num piscar de olhos, responde: “ – Faça o que eu falo e não o que eu faço.” Tempos depois, o mesmo cidadão ficou sabendo que o médico, por muito pouco, não partiu para a outra vida! Teve muita sorte de ser socorrido no tempo certo e por outro profissional que lhe prestou o primeiro socorro e o encaminhou para um setor médico com maiores recursos. Recuperou-se do susto!
Teria algo a ver com o nosso provérbio aí? Você decide!

LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO, professor de oratória e de técnica vocal para fala e canto em Carmo do Rio Claro/MG; ex-professor do ensino comercial com reg. no MEC; formado no Curso Normal Superior pela Unipac. E-mail: [email protected]