Dia a Dia

Um segundo provérbio bíblico

LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO

31 de Maio de 2021

“Onde não há bois, a manjedoura está vazia” (Pr 14,4). O cocho existe em função do trato aos animais. Se falta o animal, a manjedoura não tem sentido. Se não frequento a comunidade, não possa dizer que sou cristão. Se não quero barulho de crianças, não posso ter filhos. Se não quero louça suja na pia, não posso cozinhar em casa. Se não quero vizinhos, não posso morar em lugar nenhum. Se não quero trocar ideias, não preciso de amigos. Se não quero subir a ladeira, não posso morar no alto. Se não meço as palavras do meu xingamento, não posso reclamar de desaforos ouvidos. Se não sou conhecido de Deus pela minha oração, não posso esperar que Ele ouça minha voz. Se não tenho bois, é inútil eu botar feno na manjedoura. – Frei Clarêncio Neotti, OFM.

Mais uma reflexão de um provérbio, que tentaremos entender o que o Frei Clarêncio Neotti, OFM, deseja nos transmitir. Espero que consigamos.

“Se não existem bois para serem tratados, desnecessário será dotar a manjedoura de quaisquer tipos de alimentos destinados a eles. É mais que lógico e claro. Não há “clientes” para alimentar. O cocho está ali para alimentar animais. Se eles não existem no local, desnecessário o alimento. A manjedoura nem deveria existir se não há animais e nem perspectivas de que venham a existir, não há lógica nisso. O frei faz aí uma analogia para mostrar as diversas situações na vida em que a lógica não está presente. Se eu me considero cristão e não frequento a comunidade de minha religião, de minha igreja, que tipo de cristão que eu sou? Sou cristão apenas por ler a Bíblia e rezar em casa? Será isso suficiente? Bem, menos mal, pior ainda se nem isso eu fizesse. Mas, o ideal é conviver, é viver a minha igreja, participar, pois sempre estaremos em comunhão com os outros devotos e aprendendo também. Se não gosto e nem desejo ouvir barulhos de crianças, também não posso gerar filhos. Pessoalmente, barulho de crianças não me irritam, mas, outros barulhos indesejáveis, sim. Cada um tem sua maneira de reagir e suportar barulhos. Para quem deseja ter filhos, o conselho, então, é tornar-se mais tolerante e transformar o barulho de suas crianças em “músicas infantis”. Para tudo existe um limite, é claro, daí entra o fator saber educar as crianças, pois, eu posso tolerar, mas, os vizinhos precisam ser respeitados. Há um ditado japonês que diz: cozinha muito limpa é de casa onde não há comida. Interessante, pois estamos sempre rodeando a cozinha de nossa casa. Não significa que ela não precise estar limpa, asseada, mas, não precisa também estar “brilhando” demais, pois tirará a nossa liberdade e conforto. Como eu poderia morar em algum lugar se não tolero ter vizinhos? Eu precisaria morar na selva, no meio da mata, ficar recluso e longe de todos. Mesmo assim, eu teria vizinhos, pois a mata é morada de muitas espécies de animais. Complicado, não!? Para que preciso de amigos, parentes, conhecidos e colegas se não gosto de conversar, de trocar ideias e pontos de vista? Mais uma vez, ficar recluso seria a solução. Mesmo assim, vez ou outra eu terei de abrir a boca, pois, quem tem boca vai a Roma. Como escolher um lugar no alto de uma montanha se não gosto e nem desejo subir ladeira? O jeito é morar na baixada, mas, há situações que não terei escolha. É um problema, às vezes, de necessidade e nem sempre de escolha. “É pegar ou largar.” Se eu sou despachado, incorrigível, não tenho papas na língua, como se diz, não posso ficar contrariado se receber o troco. Quem fala o que quer, ouve o que não quer. Portanto, cautela e controle emocional são conselhos úteis. As palavras não têm volta! Se não sigo a minha religião e nem tento sempre procurar por Deus, eu poderia ser lembrado por Ele? Acredito que o frei quer dizer que aqueles que rezam, que procuram se aproximar cada vez mais de Deus, pela sua fé, estarão sempre mais perto Dele.

Resumindo, colocar feno na manjedoura de nada adiantará se eu não tenho bois para tratar. Pensemos nestas comparações aí para entender que a vida necessita de atitudes lógicas, humanas, respeitosas e é preciso muita fé.

LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO, professor de oratória e de técnica vocal para fala e canto em Carmo do Rio Claro/MG, ex-professor do ensino comercial com reg. no MEC, formado no Curso Normal Superior pela Unipac. E-mail: [email protected]