Dia a Dia

Um passeio pelo tempo

2 de junho de 2021

Em minha infância, engraxate no Salão de Barbeiro de Papai no bairro da Penha, me recordo de um senhor todo compenetrado, bem vestido e aparentando já ser cinquentão, vinha do centro da cidade, andando, chegava toda tarde no Salão.

Todos o consideravam um homem de posição, uma pessoa importante, seu nome: Miguel. Calmo, culto, educado, sempre vestido com terno, abotoaduras douradas e anel no dedo. Lado esquerdo, no bolso do paletó, preso por uma fina corrente estava seu relógio de bolso. Ao chegar ao Salão pendurava o chapéu de felpo no cabide ao lado de outros de vários tipos, cumprimentava pegando na mão de um por um, todos se levantavam e ofereciam a ele seu assento e ele, com um bonito pente de osso, antes de assentar se mirava no grande espelho para pentear o cabelo, e aí o papo estava formado.

Por ele ler diariamente os jornais que chegavam a Passos, todos ali sentados nos dois bancos nas laterais das paredes ouviam com atenção as novidades por ele trazidas e entre uma e outra notícia, com o talão do Zé Cambista na mão, perguntava o palpite de um por um. Pensativo, analisava, e com toda calma fazia sua fézinha. Pegava a palha de um, o fumo de outro, e enquanto preparava seu pito de palha, chegava até a ele a latinha de rapé de alguém. Cheirava, dava seus espirros, e todos respondiam ao mesmo tempo: “Deus te ajude. Amém, Jesus!“

Além da fama de bom jogador de dama, xadrez e sinuca, Miguel era considerado o melhor charadista da cidade. Disputava charada pelo correio com os melhores charadistas do Brasil. Tamanha era a curiosidade e a reação daqueles que frequentavam o Salão em ouvi-lo dizer as charadas, que uns punham as mãos no queixo, outros ficavam com cabeça baixa, pensativos, alguns sem entender nada, paravam até de fazer o pito.

Um dos frequentadores de todos os dias do Salão, e que ouvia atento as charadas era o sistemático “Zé Pequeno”. Seu raciocínio ia sugerindo algum sentido, e para muitas das charadas ele tinha a resposta. Zé era um rapaz já de certa idade, solteirão, de estatura baixa, andava bem trajado, gola da camisa dura, colete xadrez e abotoaduras. Tinha em sua casa um escritório, era o guarda livro (contador) de muitos fazendeiros, e ninguém, como diziam, batucava a máquina de escrever Olivetti com tanta rapidez com os dez dedos como ele. Em seu batente diário, montava processos dos direitos trabalhistas do fundo IAPC, IAPI, IAPTC, e também IAPB, dos bancários. Miguel, sabendo que entre os que frequentavam o Salão de Papai era o que tinha mais estudo, a ele formulava uma charada, deixando-o todo pensativo. E engraçado era ver o Zé nervoso quando não sabia a resposta. Estando ele fumando, deixava de tragar, mordia no cigarro grosso de palha, arrumava a abotoadura na manga da camisa, ajeitava sua bonita caneta dourada Parker no bolso do paletó, ia até a porta, limpava a garganta, cuspia e voltava. Era só olhar sua cara e todos sabiam que ele ia passar a noite toda acordado, pensando em saber qual seria a resposta, que era dada somente no dia seguinte quando se encontravam novamente no Salão. Todos os dias, era só escurecer, Miguel ajeitava o chapéu, passava o pente no bigode fino aparado rente os lábios, e dizia, “tá na hora do meu jogo de víspora.” Se despedia de todos, e subia rumo à Capela. Aí vinham os comentários: “Lá vai ele para seu encontro secreto.” Todos sabiam quem era esse seu amoroso jogo de víspora, mas ninguém se atrevia a tocar nesse assunto com ele. Não sei se ela era solteira, largada ou viúva, só sei que quando esse seu amor secreto andava pelas ruas do bairro chamava a atenção pelos seus longos cabelos (como diziam) “de samambaia,” unhas grandes esmaltadas, lábios vermelhos, nas maçãs do rosto excesso de rouge e pó de arroz, pulseiras coloridas, brincos grandes de argola, vestido ou saia apertada na cintura mostrando as ondulações.

E assim foi-se esse tempo em que se podia bater papo por longos tempos em rodas de conversa, a vida corria devagar e sempre, pela noite, ainda se ouvia ao som de violão, vozes de vários grupos de boêmios fazendo belas serenatas.

É o tempo passando e a gente “Memoriando”!