Dia a Dia

Trote

POR ADELMO SOARES LEONEL

13 de março de 2021

Se há uma coisa chata, difícil de aturar, é constatar que o interlocutor do outro lado do telefone se enganou e seu número foi premiado. Pior que isso, só trote dado por crianças insolentes, impedindo, pela sua pouca idade, uma resposta recheada de palavrões.

– “Alô. Você trabalha com roupa?”

Desprevenido, respondo não e a vozinha sentencia, sarcástica:

-“E não tem vergonha de trabalhar pelado?

Seguem- se gargalhadas de mais dois ou três banguelinhas, cúmplices. Ou senão ( bem na hora daquele soninho da sesta): -Alô.

– Ô moço, vê aí prá mim, rapidinho, se tem um carro verde na porta da sua casa! Antevendo alguma emergência, a vítima corre até a janela e procura o tal veículo da tal cor, um ou dois quarteirões e volta, frustrado, pelo fato de não ter sido útil:

-“Tem nada, não.

– “Brigado, viu! É capaz dele tê madurado e apanharam ele, né?

Quando o troteiro é adulto, a coisa passa para o campo da sacanagem, na pura intenção de prejudicar alguém, dolo caracterizado (como diria o rábula).

Tem um funcionário do Banco do Brasil em Guaxupé que sente o sádico prazer de atazanar a vida dos outros pelo telefone.
A qualquer pessoa que simplesmente lhe cause antipatia, ele faz questão de ligar duas ou três vezes, de madrugada, só para se divertir, no dia seguinte, com os olhos insones, vermelhos, do desafeto, acordado a noite toda.

Numa ocasião, uns vinte anos atrás, lá pelas duas horas da tarde, o famigerado discou para a lanchonete da família Franschischetti:

-“Alô. Aqui é do Unibanco e eu gostaria de fazer uma encomenda urgente para a comemoração do aniversário do nosso sub-gerente.

Educadamente, o proprietário chamado Hélio atende com a finura costumeira vinda de um carater digníssimo e íntegro, que caracterizava esta família buona gente, querida por todas quantos desfrutassem do seu convívio e das delícias de sua cozinha. Se dispõe a anotar o pedido, dando sinais à sua mana cozinheira que alguma coisa grande viria por aí e que ela interrompesse todos os afazeres rotineiros para atendê-lo.

– “O senhor pode mandar duzentos quibes, cento e cinquenta pastéis,sessenta refrigerantes e uma caixa de cerveja. Dois pacotes de guardanapos, palitos de dente e, por favor, providencie também meia grosa de copos que a gente lhe devolve em seguida. O nosso expediente, hoje, sexta, se encerra às 17,30 e neste horário faremos a festinha-surpresa”.

Agradecendo, desligou. O Hélio já se preparava para confirmar o pedido, quando toca novamente o telefone e a mesma voz:

-“Desculpe, mas eu ia me esquecendo das coxinhas -cem dão- e umas dez garrafas de água mineral que tem um pessoal aqui de regime. Ah! o bolo também com trinta e oito velinhas!

Diante de tantos detalhes e agradecendo a Deus por tamanho e inesperado pedido, o Hélio pôs mãos à obra, acendendo todas as trempes do fogão industrial, emassando aqui, recheando ali, enrolando, fritando, acondicionando lufa-lufa envolvendo todos os funcionários da casa e familiares.

Na hora aprazada, dirigiu- se ao Unibanco com a encomenda pronta, ornamentadas em grandes e artísticas bandejas, escoltado por dois garçons, especialmente contratados, além do Lagoa, em impecáveis uniformes brancos e azuis, sem esquecer o gorrinho tombado na testa.

Passaram fácil pelo guarda, alegando ser uma surpresa ao sub-gerente, acenderam um monte de velas no bolo e, bem ensaiados, desfilaram com pompa, entoando em alto e bom som o “Parabéns prá Você”, na ilusão que todos os bancários os acompanhariam na cantoria.

Estes, sem entenderem patavina aquele séquito comemorativo, olhavam boquiabertos e, sentindo o cheiro do ridículo, o coral foi diminuindo o entusiasmo até que o “muitos anos de vida” não passou de um murmúrio sem graça. Constatado o engodo, voltaram nos calcanhares, enquanto, do outro lado da rua, o troteiro, satânicamente, ria da raiva de sua vítima.

Neste instante, chega, bufando de tanto correr o Walter, irmão e sócio do Hélio:

Uai, mano! O pessoal do Banco Itau telefonou agorinha mesmo, perguntando se os salgados e a bebida encomendados chegam ou não chegam.

O brilho se renovou nos olhos do lanchoneteiro (“como pude me enganar assim de banco?!!!”) e, repetindo tin-tim por tintim a mesma cantoria e ritual solene, adentraram no Itau, desta vez, os cinco. Mesmíssimo ridículo.

Os transeuntes que por ali passavam, se espantaram com o acesso de fúria dos dois conhecidos e pacatos irmãos atirando para a rua quibes, pastéis e coxinhas, acompanhados de escandalosos xingatórios e promessas de “se pego, eu mato!”.