Dia a Dia

Tenho minhas dúvidas

29 de abril de 2020

Alegre, espirituoso, boa prosa, tinha um sítio pouco atrás do bairro da Penha. Ao chegar à Sapataria, Sô Nicolau, meu freguês de botinas de longa data, sempre tinha seus causos sobre cobras, e fazia todos darem muitas gargalhadas, nem tanto pelo ocorrido, mas pela sua maneira de contar os causos.

E assim suas narrativas iam se sucedendo: “Pegador bom de cobras tem que calcular o seu tamanho.

Cobra nenhuma dá o bote maior que ela. Sempre gostei de lidar com cobras perigosas como a Cascavel de Quatro Ventos, daquela que até seu bafo é venenoso.

Essa, quando está enrosco mexendo só com o rabo e sacudindo o chocalho, tá avisando que vai atacar e soltar seu veneno mortal.

Quando encontro alguma pelo meu caminho, com um pau comprido, fico cutucando a rodeira, mexendo, infernizando a bicha, e ela, de tanto dar o bote se cansa, desanima.

Ai pego o pau de forquilha, prendo a cabeça, e fica fácil dar fim nela, já esperando aparecer a que sobrou do casal, porque Cascavel só andam em casal, vivem no mesmo ninho e em áreas frescas.

Ao matar a Cascavel, corto seu guizo, conto os gomos, cada gomo corresponde a um ano de vida dela, e assim vou aumentando minha coleção das tantas que já matei. Outras cobras venenosas são Urutú Cruzeiro, Jararaca, Coral e Jaracuçu, que tem picada mortal.

A tal de Caninana que investe e corre atrás da gente, dizem não ter veneno, mas para mim é venenosa, quando persegue uma criação, corre com a ponta do rabo até dar o bote certeiro. Agora as Jibóias, essas não são venenosas, só alimentam de gambás, galinhas, e onde tem Jibóia não existe ratos. Elas farejam mulheres que tem neném novo e à noite vão até a cama, mamam no seio e enfiam a cauda na boca da criança para enganar.

E dava seus conselhos: “Se vocês sonharem com cobras, e quiserem ganhar dinheiro, façam sua fezinha não jogando na cobra, mas jogando no camelo, e se alguns de vocês tiverem um galo no terreiro prestem bem atenção que de 7 em 7 anos ele bota um ovo, e desse ovo nasce uma cobra, e se quiserem aprender a tocar violão e ser um bom violeiro, tem que pegar esse filhote que ainda não solta seu veneno, agarra ele com o polegar da mão direita e o indicador, deixando que ele se enrole nos outros dedos, e com a mão esquerda solta ele. Isso é tiro e queda, aconteceu comigo: sou um bom tocador de viola!”

E dele também certa vez ouvi esse caso: “Há muitos anos atrás, lá pras bandas que eu moro, começou a sumir boi, vaca, cavalo, cachorro, e todo tipo de criação. E o povo apavorado começou a falar que era uma tamanha gigante de uma Sucuri que se aportou naquele rio vindo de longe em uma enchente há anos atrás. É o tempo passando e a gente “Memoriando” e “Proseando”!”

E lá, num certo dia, dei falta da minha cachorrinha Bolinha, vira lata valente, pegadeira de frango para o almoço de domingo. Saindo a sua procura, dei de encontro com a danada da Sucuri, estava amoada, dormindo em uma fresca debaixo de uma árvore ao lado do riacho com a barriga cheia. Voltei em casa, peguei meu podão bem afiado, e pé- po- pé me aproximei da bichona, que no sono, tava até roncando. Mirei bem sua testa, e sem que ela acordasse, parti sua enorme cabeça no meio.

Gritei a mulher e os filhos, arrastamos a bichona até o terreiro de casa já com os vizinhos todos me cumprimentando pela proeza. Com a ajuda deles, e muito cuidado, ao destrinchar a barriga da bitela Sucuri, para minha surpresa, da família e da vizinharada, estavam lá, ainda vivos: sete peixes de sete parmo cada um, o jacaré do papo amarelo que há tempo vinha comendo nossas criações, e o meu bode que nem sabia que ele tinha sumido, saiu dando pinote.

E já descendo pela garganta saiu abanando o rabo e com um latido fanhoso a minha valente Bolinha!”
Desse caso da Sucuri, por mais seriedade que sô Nicolau contou, até hoje tenho minhas dúvidas se é verídico!

É o tempo passando e a gente “Memoriando” e “Proseando”!