Dia a Dia

Setembro

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS

6 de janeiro de 2022

Imaginem a cena: um sobrado antigo com vários cômodos, dentre eles um sótão pulverizado com uma fina manta de poeira, no centro do aposento uma lâmpada turva balança num fio comprido enfeitado por um emaranhado de teias de aranha, a luz fraca jura que ilumina o ambiente lotado de caixotes velhos, entulhos e um baú. A menina curiosa não resiste, abre a caixa velha, quer encontrar tesouros encobertos pelo tempo.
Com o coração batendo forte ela descobre dentro do baú velho uma pasta amarela com um título estranho: “Terceiros”; ela não resiste, abre e encontra a pérola que segue:
“Era setembro. O tempo “voava”. Triste, costurava meus pensamentos. Aquele pesado peso pesava até não suportar a carga. Ela machucava. Parecia atingir a alma. Não, era algo ainda mais pessoal, mais íntimo. De repente, começava a suar. Era frio e escorria da cabeça para o pescoço, do corpo para o rosto. Exalava mau cheiro. Não…não era bem isso. Às vezes penso que tudo não passava de mera impressão de uma cabeça perturbada pelos muitos acontecimentos daqueles tempos. Verdadeiros ou fantasiosos eles estavam ali, companhia indesejada, porém presente. Aceleradores da vida, dela ganham distância. Lépidos, na sua eterna busca, querem o desconhecido que, por isso mesmo, não encontram. Somente o vazio vem povoar-lhe a cabeça
De novo, é setembro. As sensações voltaram. Aliás, elas não tinham passado. Mantiveram-se: o mesmo lugar, mesmo tempo, mesmos afazeres, mesma vida: cheias do enorme vazio que suas vidas lotaram de nada. Por si mesmas, buscam; por si mesmas, mantém a “vidinha besta”, como diz Carlos Drummond de Andrade.
O suor desapareceu. Em seu lugar veio o sufoco que ultimamente me tem feito visitas cada vez mais frequentes. Com elas, vem um aperto no peito. A dor dá vontade de chorar. Não choro, nem posso.  Se o fizer acabam dizendo que estou doido. Ainda há pouco quase não resisti. Derramei algumas lágrimas. O fiz longe dos olhos alheios. O motivo? É fácil: não queria ser visto com cara de choro. Logo, logo, me recompus. Não era aquele infeliz acontecimento que abalaria minha credibilidade. Pelo menos aos meus próprios olhos.
Dizem que estamos em abril, e para setembro ainda faltam quatro meses. Só que em abril não haveria tantas flores como agora. É setembro.“
Estamos em outros tempos, não existe sobrado antigo, apenas um computador ultrapassado que herdei do meu pai; também não existem muitos cômodos e tampouco um sótão empoeirado, apenas pastas amarelas no antigo Desktop que arquivam vários textos no formato Word. Mas, ainda existe uma mulher curiosa, que encontrou um tesouro nessa busca, a minha pérola, um fragmento de texto escrito por meu pai quando a doença ainda não sufocava a sua mente.
Esse pedaço de texto é a minha preciosidade, porque, para mim, não existe nada mais valioso do que as emoções humanas. Não, não existe nada mais importante do que os nossos sentimentos. Não, não existe nada mais saudável do que conseguirmos nomeá-los, e, sobretudo, ainda que com dor, vivenciá-los. Não, não existe nada mais digno (e sem sentido) do que escondê-los dos nossos queridos com o fim de protegê-los.
E por mais que, incialmente, eu tenha me sentido muito triste com a melancolia do texto, logo, ela cedeu espaço para uma alegria forçada. Senti-me melhor porque compreendi que existe no coração do papai um desejo de que seja sempre setembro. Percebi que as perdas e as incapacidades provocadas pelo Mal de Parkinson, doença degenerativa que o abraçou há vinte anos, não permitiram que ele se perdesse de si próprio e tampouco furtaram-lhe o desejo de flores e recomeços na vida.
Nesse pequeno texto, ele fala de seu senso de sentido para a vida, de suas vulnerabilidades, de sua identidade e alguns de seus questionamentos sobre esse breve espaço de tempo entre o nascer e o morrer. E, antes que me acusem, não houve invasão de privacidade, foi ele quem me autorizou a ler e a publicar esse texto tão pessoal. Lembrou-me ainda de sua música preferida. “ Devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer”…Sentir nunca foi vergonhoso para o papai.
Depois de encontrar esse texto, no meu coração persistiu uma dúvida, que, infelizmente, pelas dificuldades atuais, o meu pai não conseguiu sanar. Gostaria de entender o porquê do título “Terceiros”, já que não possui relação alguma com o conteúdo escrito. Aqui faço meras suposições, e penso que, como um bom conhecedor da alma humana, ele quis nos contar sobre as angustias de terceiros, sobre as dele, sobre as minhas, sobre sentimentos comuns, tão presentes e tão nossos.

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. E-mail: [email protected] gmail.com