Dia a Dia

Serpentes

POR IRIS CRUVINEL BASTOS

14 de Maio de 2021

Quando me mudei para São Roque, eu não tinha nenhum amigo, familiar, ou conhecido — além dos meus pais, é claro. Na escola era horrível! Estava sozinha o tempo todo, as pessoas me olhavam com um olhar estranho. Isso nunca me deixava aproximar-me delas. Na verdade, essa poderia ser a intenção. Quando alguém demonstrava algum interesse de se socializar comigo, eu não perdia a chance.

Certo dia, eu estava na escada da portaria da escola lanchando, pois as mesas sempre estavam ocupadas por grupos de amigos que, claro, não me aceitariam. Uma garota começou a conversar comigo, fiquei extremamente feliz por isso, mas o seu olhar era assustador. Sempre com os olhos arregalados, e com um sorriso que me dava medo… Mas ela estava conversando comigo, então, pra mim tudo bem. Depois de um tempo, chegaram outras pessoas que se sentaram ao nosso lado, formando um círculo. Todos eram seus amigos, e eles também eram estranhos.

João, o mais alto, era cheio de tatuagens, e uma delas me chamou a atenção. Uma serpente no ombro, diferente, mas bem legal. Davi tinha os olhos cor de mel — ah, como eram lindos! — alguns piercings, e uma tatuagem, a mesma de João, só que nas costas. E Alícia tinha nome meigo, mas não tinha nada de meiguice — ao contrário, ela me olhava sempre com uma expressão ruim. Nós combinamos de sair, e nos encontrarmos em uma rua que, apesar da cidade pequena, eu nunca tinha ouvido falar.

Ao chegar em casa, contei aos meus pais sobre meus novos amigos, eu estava tão feliz! Em uma semana havia feito quatro amigos! Tudo bem que você, leitor, pode achar pouco, mas para mim? Naquela época? Era uma enorme conquista, pois sempre fui muito tímida. Perguntei a eles sobre a tal rua, mas eles disseram que não sabiam onde era, então meia hora antes do combinado, saí a procurar a rua seguindo apenas os pontos de referência que eles me deram.

Estava em uma rua escura e vazia, ponto de referência: cemitério, tudo indicava que era lá, mas não havia ninguém, comecei a ficar com medo, até que olhei o lugar e vi uma luz… Aí que fiquei com medo mesmo, mas logo vi que era Amanda a garota que veio primeiro conversar comigo, e estava me chamando.

— O que estão fazendo aí? — perguntei, realmente assustada.

— Vem logo! Eu te ajudo a pular o muro — ela disse. Pulei o muro do cemitério e ela completou:

— Não conte a ninguém que viemos aqui.

Assenti com a cabeça. Ela pegou na minha mão e me levou a uma casinha, dentro do cemitério; lá estava o restante da turma; eles colocaram velas no centro da casa e nos sentamos em círculo, meu lugar dava de frente para uma janela, o que possibilitava que eu visse fora da casa. Alícia disse para nos darmos as mãos e fecharmos os olhos. Rapidamente, todos fizeram o que ela pediu, menos eu.

Fiquei observando-os, e percebi que Alícia e Amanda também tinham a serpente tatuada. Seriam eles membros de alguma gangue? Mas aqui nesta pequena cidade? Pensei. “Será que terei que fazer uma também? Tenho medo até de fazer exames de glicose!”. Pensando nisso, dei uma risada, bem sutil na verdade, que fez com que eles abrissem os olhos, menos Alícia.

Eles me olharam com um olhar medonho, abaixei a cabeça, e algo lá fora me chamou a atenção. Comecei a olhar fixamente para a janela, sombras passavam rapidamente à volta da casa. Soltei minhas mãos das deles, por incrível que pareça, nem perceberam, e me levantei. E, do nada, Alícia começou a dizer coisas estranhas, seus olhos, mesmo fechados iam de um lado para o outro. Davi, assustado, abriu os olhos, tentou livrar suas mãos, mas não conseguia, e eu fiquei parada, em choque, enquanto ele gritava:

— Está queimando!

Fui até a porta, tentei abri-la, mas nada acontecia, dei murros, chutes, mas não adiantavam, até que a janela se quebrou, olhei para trás, e eles não estavam mais lá. Desesperada, tentei outra vez abrir a porta. Ela se abriu, corri tanto, mas tanto, que num pulo, consegui subir o muro, o que antes, eu devia ter demorado uns cinco minutos.

Cheguei à casa em dez minutos. Naquele dia devo ter perdido, no mínimo, três quilos. Deitei-me na minha cama e comecei a pensar que tudo aquilo poderia ser brincadeira, só para me assustar por eu ser nova no grupo, e esperei que no dia seguinte eles fossem à escola. Mas eles não estavam lá!

Dias se passaram e nenhum sinal deles. A coordenação nos perguntou se tínhamos os visto, eu não disse nada, obviamente. E até hoje ninguém sabe deles. Às vezes, fico remoendo o que aconteceu, nunca disse a ninguém que estive lá também, pois do que adiantaria? Quem iria acreditar? Principalmente sendo numa cidade conhecida por ser calma, segura, e com várias lendas — que são apenas isso, lendas e nada mais. Posso dizer que me enganei totalmente, pensei que seria um ano tranquilo, que eu iria para a fazenda e relaxar, mas ao contrário, aquele foi o ano mais agitado da minha vida.

IRIS CRUVINEL BASTOS faz parte de um grupo de alunos do 3º ano do Ensino Fundamental à 3ª série do Ensino Médio, que no ano de 2018, integrando um grupo organizado pela escritora Maria Mineira, com o apoio da Cooperativa Educacional de São Roque de Minas lançou em 2019: “Letras da Canastra- Cooperativa Educacional Escrevendo História”. Para adquirir um exemplar entre em contato pelo e-mail: mariamineira2011@yahoo.com.br