Dia a Dia

Será que a doida sou eu?

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS

23 de setembro de 2021

Já tive muitas fases de Simão Bacamarte, para aqueles que não o conhecem trata-se do psiquiatra inventado por Machado de Assis no conto “O Alienista”.

Parece-me que o objetivo do autor quando escreveu o texto foi questionar o modo de se fazer ciência, que no final do século XIX estava em plena expansão. Mas como é próprio dos grandes gênios, além de cumprir com o seu propósito, Machado de Assis nos deu uma estória divertida e reflexiva sobre a loucura nossa de cada dia.

Vou dar um spoiler da história que aconteceu na fictícia Itaguaí, cidade em que foi construída a “Casa Verde”, um manicômio em que o Doutor Simão Bacamarte, usando critérios científicos duvidosos, segregava e cuidava de seus pacientes loucos.

Pois bem, já fui uma Simão Bacamarte e temo ainda ser. Só que hoje os meus paradigmas para a maluquice são outros.
Na infância, quando eu ainda não me julgava por julgar, bastava alguém ser diferente das minhas expectativas que eu exercia sem remorso a psiquiatria do Doutor Bacamarte.

Adorava me assentar na calçada para catalogar “os malucos” que passavam pela minha rua, sonhava com o meu hospício cheio deles, tudo em nome da minha ciência. A minha Casa Verde era o galinheiro da casa da vovó. Será que existe animal mais pirado do que galinha?

Havia um homem sisudo, comprido e torto que me lembrava um guarda-chuva fechado ambulante. A despeito das previsões climáticas, curiosamente, ele sempre trazia consigo um guarda-chuva pendurado no punho. Era um guarda-chuva transportando outro.

Na minha cabeça avoada, o distúrbio dele consistia em carregar sem necessidade um objeto inútil pelas ruas da cidade. Nunca me ocorreu que ele pudesse estar se precavendo de eventuais mudanças no tempo ; e que o rosto azedo e torto poderia ser reflexo de dores numa coluna cervical fora do prumo. Pra mim ele era doido e ponto final. Merecia o galinheiro.

Existia um outro louco que aparecia esporadicamente no meu bairro, o doido da vez era um senhor maltrapilho que andava pelas ruas carregando sacos de quinquilharias e latinhas de massa de tomate barulhentas.

Corria um boato entre as crianças que ele fora muito inteligente na infância e que a doideira surgiu após um excesso de estudos, os seus neurônios não suportaram tanta tabuada e ele pirou.

Então, toda vez que eu era pressionada para estudar, argumentava que, no futuro, eu poderia me tornar uma mulher maltrapilha carregando um saco de quinquilharias e latinhas barulhentas pelas ruas da cidade.

Como resposta ao meu argumento dramático, minha mãe só me apontava o caminho da escrivaninha de estudos.

Não me recordo do timbre da voz do “doido”, os seus pedidos eram mudos e gestuais, estendia a mão e esperava, e no meu julgamento científico infantil a doidice do homem estava em ser paciente na espera dos seus pedidos, Ele não fazia birra e nem batia os pés quando contrariado.Como isso seria possível ?Só podia ser louco.

Dos pirados da cidade a que mais interessava os meus estudos era uma mulher que diziam não usar roupa íntima e, caso a contrariassem, ela levantava as saias sem pudor. Naquela época, falar em calcinha e cuecas era o mesmo que dizer um palavrão, mostrar as partes íntimas era um certificado de pós-doutorado em loucura.

Nunca apurei se a história da moça sem calcinhas seria fake, mas já era o embrião de minha mente machista pronta para julgar uma mulher e suas decisões relacionadas à genitália.

Como previ tornei-me uma mulher com um saco de quinquilharias pesadas, a realidade da vida me humilha todos os dias, escarnece da minha ilusão de que existe um mundo ideal habitado por pessoas perfeitas; e que nem essas e nem aquele giram em torno do meu umbigo. Que pena.

Assim como o senhor maltrapilho da minha infância, resta-me fazer barulho, só que agora com as palavras. Pronto, copiei o doutor Bacamarte e FUI… o galinheiro da casa da vovó me espera.