Dia a Dia

Ser inteligente

12 de Maio de 2020

Afinal, o que significa a expressão ‘ser inteligente’? Convivemos, continuamente, com pessoas diversas, cada qual com sua forma de agir, falar, trabalhar, e reagir a determinados estímulos e em situações mais inusitadas. O conceito, arraigado entre nós, de que ‘inteligente’ é aquela pessoa que fala com fluência, ou faz cálculos matemáticos com desenvoltura, ou aquele aluno exemplar, que obtém excelentes resultados nas avaliações e consegue, com facilidade, memorizar fórmulas e informações sobre diversas áreas do conhecimento já não é aceito como único.

Comenta-se que Einstein, o cientista reconhecido e admirado como gênio, foi considerado um aluno com poucas chances de sucesso na vida, pois era muito ‘avoado’, disperso durante as atividades escolares, ou seja, nos padrões de avaliação pessoal até então conhecidos, ele não teria sucesso em qualquer atividade que exigisse raciocínio ou cálculos. É notório, também, o fato de pessoas taxadas como maus alunos terem conseguido sucesso como vendedores, comerciantes, músicos ou bailarinos.

Tempos atrás, tomei conhecimento de uma videopalestra, com o título ‘Aja como homem, pense como mulher’, que tratava das diferentes formas de agir do homem e da mulher, em virtude das diferenças psicológicas e cerebrais entre eles. Também a genialidade de Leonardo Da Vinci foi alvo de estudos, comprovando as suas diversas habilidade e inteligências.

A ‘teoria das Inteligências Múltiplas’ publicada em 1985, por Howard Gardner, psicólogo e professor da Universidade de Harvard, Estados Unidos, baseou-se em diversas pesquisas para questionar a ‘tradicional’ visão da inteligência, antiquada, que enfatiza apenas as habilidades linguística e lógico-matemática. Gardner demonstrou que um aluno pode ser considerado inteligente, apresentando outro tipo de inteligência, mesmo que não seja muito bom em Matemática ou em Português, como se considerava até então.

Ainda hoje, ouvimos falar do famoso Q.I. (quociente intelectual), uma medida baseada em testes aplicados a determinada pessoa que representava, ‘em números’, ‘quantitativamente’, o seu grau de inteligência. Um único número, derivado do desempenho de alguém em um teste, não poderia retratar uma questão tão complexa como a inteligência humana, defendia o cientista.

Neurologistas têm documentado que o sistema nervoso humano não é um órgão com um único propósito, nem tão pouco é infinitamente maleável. Acredita-se, hoje, que o sistema nervoso seja altamente diferenciado e que diferentes ‘centros neurais’ processem diversos tipos de informação.

O desenvolvimento do conhecimento de uma criança é agora entendido como uma capacidade, cada vez maior, de entender e expressar significado em vários sistemas simbólicos utilizados num contexto cultural (onde ela vive) – como a música, o desenho ou a dança, além do relacionamento consigo mesma ou com os outros. Infelizmente, muitas famílias inibem o desenvolvimento ‘das inteligências’ de seus filhos, acreditando que somente as carreiras tradicionais poderão lhes dar destaque social e realização pessoal. Um exemplo disso é o compositor Chico Buarque, que deixou a Universidade, na área de Exatas, Engenharia, para se dedicar à música e à literatura, com muito sucesso.

A inteligência é algo difícil de ser medido. Temos inteligências diversificadas, uma mais evidenciada do que outras. O fato de não termos habilidades em uma determinada área não significa que não sejamos inteligentes. Conhecemos pessoas de sucesso na vida empresarial e pessoal que não eram consideradas boas alunas pelos conceitos tradicionais de avaliação.

Mesmo quem já é adulto poderá desenvolver áreas do cérebro até então pouco utilizadas. Basta ter a iniciativa e procurar aprender coisas novas, mudar seus hábitos, sua maneira de pensar e de encarar os acontecimentos da vida. Nos negócios e na vida, isso significa o desenvolvimento criativo de novas estruturas, novos relacionamentos e novas soluções, abrindo assim, novas possibilidades para o seu mundo. O filósofo Heráclito declarou que: “a única constante em nosso mundo, é a mudança”. A mudança pode ser incômoda e até ameaçadora, mas ela pode assustar mais quando as pessoas não possuem um alicerce sólido de educação e formação, no qual possam se basear.

Gardner estabeleceu vários critérios para que uma inteligência seja considerada como tal, desde ‘sua possível manifestação em todos os grupos culturais’ até ‘a localização de sua área no cérebro’. Ele próprio identificou ‘sete inteligências’, mas, atualmente, defende a presença de uma oitava, a habilidade de desenhar também. São elas: a ‘Lógico-Matemática’ (raciocínio dedutivo e solucionar problemas envolvendo números), a ‘Pictórica’ (capacidade de desenhar), a ‘Musical’ (organizar sons de maneira criativa), a ‘Intrapessoal’ (em relação com si mesmo), a ‘Interpessoal’ (em relação aos outros), a ‘Espacial’ (de orientar-se, situar-se), a ‘Linguística’ (da facilidade de falar e escrever) e a ‘Corporal-Sinestésica’ (de movimento, de dança).

Embora as escolas declarem que preparam seus alunos para a vida, ela certamente não se limita apenas a raciocínios verbais e lógicos (de Português e Matemática). As escolas devem favorecer o conhecimento de diversas disciplinas básicas, que encorajem seus alunos a utilizar esse conhecimento para resolver problemas do dia a dia e efetuar tarefas que estejam relacionadas à vida, ‘na comunidade a que pertencem’, e que favoreçam o desenvolvimento de combinações intelectuais de cada um, a partir da avaliação regular do seu próprio potencial.