Dia a Dia

Seca-Pimenteira

POR ADELMO SOARES LEONEL

6 de março de 2021

O fato se assucedeu nas bandas de Vargem dos Lopes e Guia Bonita, nas nascentes de um tal Chico que se apoderoseia quanto mais corre pro norte, em tamanho e importância. Povo pacato, unidos na precisão (brigaiada só nas políticas, que é de praxe), em meio a tanta formosura da natureza que até se acham na vizinhança de Deus. Puisintão.

Rapaz na flor dos anos, no descompromisso da solteirice, o Reno, de ofício, mandava ver na papelada do fórum na Guia e recebera o incumbência de visitar, negócio de correição, um cartório lá em S. José dos Barrancos, viagem aprazada pra naquela tarde calorenta de verão brabo. Enquanto preparava os carimbos e formulários da dita correição, viu assomar na sua beira de mesa o Dr. Romão, advogado, pedindo-lhe um “favorzinho” tipo fazer andar determinado papel ao juiz, atropelando imensa fila de outras demandas. Descartou a possibilidade, amável e educado, mas firme na negativa. E aproveitando a presença do doutor, requisitou-lhe o favorzinho de uma carona aos Barrancos, ciente da vista que faria a um cliente fazendeiro da região.

– Meu carrinho é um forno, doutor Romão e o do senhor um Golf 2.0 zeradaço, ar condicionado. Vai coincidir certinho nossa ida. Quem sabe…

– É. Quem sabe…

Pro Reno estava tudo arranjado, contava com a carona certa apesar da maneira meio evasiva do quem sabe… Só percebeu mais tarde seu engano depois que o advogado caiu fora sem ele, talvez retaliando- o pela negativa da manhã. Fazer o quê? Ossos profissionais! Abriu ao máximo as janelas do poisé 1.0, ano 99, duas portas, e caiu na estrada rompendo as ondulações de quentura que marolavam à sua frente. Ah! As voltas do mundo! No quase parar de um quebramolas do Sobradinho, topa o Golf 2.0 de volta, pisca o farol e cara a cara com o doutor, ironiza:

– Brigadão pela carona, Dr. Romão.

O ar escandalosamente fétido que saia pelos vidros abaixados testemunhava à perfeição a resposta:

– Foi praga sua, seu seca-pimenteira!

– Uai!

– Foi sim. Tive de sair mais cedo do fórum e nem deu pra lhe avisar.

– (“tô sabendo!!!)

– Pior é que estava com uma meia diarréia sem importância e fui mesmo assim. Muncadinho depois da Vargem dos Lopes a meia diarréia virou uma caganeira inteira e me sujei de cabo a rabo, literalmente. Uma tragédia. Nem deu pra apear. Acostei o carro, tirei a roupa, me limpei como pude e taquei fora aquela lambrequeira de calça, camisa, cueca, até a gravata.

– Que zebra, hein doutor?

– Zebra? Uma tropa de zebras! Sobrou meia, sapato e uma cueca usada que estava na pasta…

Claro, também o óculos rayban com uma nesguinha de merda na lente e o paletó preto com riscas de giz que mostrava o peito branco pelado.

– Estou voltando à Guia Bonita, tomar um banho e providenciar nova muda de roupa no hotel. Meu cliente deve estar puto da vida com o atraso e eu nem avisei…

Procurou o celular no bolso de cima do paletó, depois nos de baixo e, gesto de desespero, bateu as duas mãos abertas na testa.

– Pura que o patiu!!!

Acelerou o Golf 2.0 zeradaço, deu um cavalo de pau e retornou em direção ao Barranco, cantando peneus e deixando um rastro de fedentina no ar.

Na tranqüilidade dos vingados e placidez dos justos, o Reno segue atrás, devagar, ainda dá uma paradinha na entrada da Vargem, retoma o caminho e dali uns dois quilômetros a cena inesquecível!!!

Na beira da estrada, sob uma solama de esturricar, de meias e sapatos pretos, de paletó com riscas de giz, pernas branquelas e calva avermelhada, o eminente advogado Dr. Romão Baptista de Albuquerque, agachado no mato, escarafunchava, com uma varinha, roupas empesteadas de excrementos intestinais liquefeitos à procura dos documentos e celular que atirara fora junto com a lambança!!!

– Precisa de uma favorzinho aí, doutor?

– Se você comentar esse lance com alguém, te mato viu, seu seca-pimenteira!!!

A ameaça foi explícita e talvez explicasse o motivo pelo qual o Reno demorasse uns três dias pra me contar o caso.

Pô! E logo pra mim!!! Vocês acham que ele pretendia guardar segredo?