Dia a Dia

Rui Barbosa e as escolas

DÉCIO MARTINS CANÇADO

15 de junho de 2021

“De tanto ver crescerem as injustiças, de tanto ver aumentarem as nulidades, de tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, rir-se da honra, ter vergonha de ser honesto”.

Assim falou Rui Barbosa, o “Águia de Haia”, usando aqui uma ‘antonomásia’, que vem a ser a substituição de um nome próprio por outro mais conhecido, comum, como por exemplo, quando usamos ‘Pelé’, em substituição a Edson Arantes do Nascimento.
Rui Barbosa viveu de 1849 a 1923 e participou, com muito brilhantismo, representando o Brasil, da Segunda Conferência de Paz, na cidade de Haia, em 1907; portanto, proclamou o pensamento citado no início, há mais de 100 anos, o que nos surpreende pela sua atualidade.

Quis relembrar essa máxima do ‘Rui’ porque sei que muitos profissionais da nova geração não a conhecem integralmente. Também porque sei que ela sempre será oportunidade de reflexão para quem deseja uma sociedade mais justa, íntegra e ética. Finalmente, porque acredito que ainda há esperança, apesar de que muitos já tenham desanimado. Quem trabalha em Educação jamais poderá se dar o direito de acreditar que não há chances para que ocorram mudanças, apesar de determinadas pessoas desonestas e de mau caráter, de algumas entidades suspeitas e alguns homens ‘públicos’.

Educar é transformar, é mudar. Se há alguma coisa errada no meio em que vivemos, é necessário que aconteça, com urgência, uma ação imediata e transformadora, em casa e na sala de aula, embasada em valores éticos, indiscutíveis e inegociáveis, para que possamos almejar dias melhores.

Se hoje há corrupção, altos índices de criminalidade, desrespeito às leis, às instituições e às autoridades constituídas, como também há violência no trânsito, na sociedade, podemos afirmar que há problemas na Educação, tanto em casa quanto nas escolas.

Numa campanha política recente, um candidato afirmava, entre outras coisas, que era ‘honesto’, quando alguém bem lembrou que essa qualidade não era privilégio do mesmo, mas uma ‘obrigação’ de todas as pessoas de bem, especialmente de quem almeja algum cargo público. Esse e outros valores devem, obrigatoriamente, fazer parte de atividades e projetos trabalhados nas escolas.
Será que não conseguimos enxergar que há algo de errado no mundo em que vivemos?

De acordo com o Prof. João Otávio Bastos, os defensores do modelo de sociedade que está aí, e que querem nos impingir, argumentam que “houve grandes avanços nos últimos anos que melhoraram a qualidade de vida das pessoas”. O problema é: quantas pessoas foram beneficiadas com isso? Qual partido político e seus líderes levaram alguma vantagem? Quais instituições deixaram de cumprir com suas finalidades? Qualidade de vida tem a ver com abrangência, com quantidade de pessoas beneficiadas. “Qualidade, sem abrangência, é privilégio.”

Parece que estamos ficando anestesiados pelos atos de quem tem o poder de decisão. Às vezes, tenho a sensação de que nossa sociedade está sob o efeito de alguma droga, o que a leva a um estado coletivo de torpor, de alienação. Nesse contexto, estar anestesiado é pior do que estar sedado, pois os movimentos continuam os mesmos, só que perdemos a capacidade de sentir, indignar-se e reagir.

‘A síndrome de Estocolmo’ é o nome atribuído a uma manifestação observada em alguns sequestrados, que passavam a gostar de seus sequestradores. Da mesma forma, passamos a admirar quem desmoraliza nossas instituições, corrompe nossos ideais, quem nos faz mal, corrói nossa saúde, mas como não sentimos dor, como não queremos nos comprometer, não fazemos nada para nos livrar, e assim, continuamos anestesiados.

Meu desejo é que, refletindo sobre os dizeres de Rui Barbosa, saibamos ‘tomar partido’ a bem da verdade e da boa formação dos nossos filhos e dos nossos alunos. Felizmente, temos em ‘nossas mãos’, na medida de nossas dimensões, uma instituição de Ensino disposta a colaborar com isso.

Basta cada um de nós querer, participar e, principalmente, acreditar.