Dia a Dia

Remedinho porreta!

16 de Maio de 2020

A égua empacava que nem moirão de curral!”O Amácio reconhecia o único senão da égua rosia, animal de estima desde quando a viu nascer, filha de pais premiados, tratada na mamadeira, pernas compridas e finas cabriteando por toda banda. Potrinha, gênio manhoso, principiou a dar defeito no ensino, descabeceada no manejo, o que lhe facilitou a compra do patrão impaciente, incapaz de tolerar qualquer manchinha na sua famosa tropa de cabeceira.

Cresceu bonita a Goianinha, encorpou, reluzindo a musculatura sadia nos galopes rápidos ou na marcha garbosa e serelepe, de chamar a atenção adonde passasse. Porém, assim no sem mais nem menos, fincava as quatro patas no chão, impossível de aluir quer no afago carinhoso da crina quer no estalar de relho no lombo ou no riscado dolorido das esporas.

– Divia de ter nascido mula!

Os palpites explicativos variavam.

– Êta Goianinha birrenta, sô! Igual à vó dela.

– Criada no luxo só pudia ter saído teimosa.

– Talequale mocinha de colégio!

– Só anda se der na têlha!

O Amácio chegava mesmo a quase entendê-la, conversava bastante no pé da ouvido, cantava toadas em surdina, os empacamentos minguaram na constância, mas nada arredava, se parasse.

Duma feita, o companheiro de lida Tuca da Inhá Afonsa trouxe lá da Mata dos Sinos uma latinha de pomada, produzida por famoso raizeiro como remédio batuta mode curar unha encravada, aprumar vaca atolada em brejo e tocar adiante bêsta recalcitrada:

– Usa ansim, ó! Destampa aqui, besunta os dedos da mão direita, com a canhota ocê sunga o rabo da égua e passa na entradinha do fiofó.

– Bão, Tuca. Brigado.

E alojou a latinha no bolso da guaiaca, esperando ocasião. Demorou, parecia que a Goianinha adivinhava-lhe a tenção, andava dócil e esperta. Puisintão.

Domingo, madrugadinha quente e limpa, o Amácio avia os trens e a égua, disposto a cobrir as duas léguas de distância até a casa da Inácia onde morcegaria o dia inteiro e, quem sabe!, nos finalmentes da visita trancaria o compromisso de noivado, desfêcho natural de um arrastamento de namoro a par de anos. Ô bicho ativo e ciumento, sô! Precaveio no subiado do dono, no jeito de apertar a barrigueira, no galeio de amuntar, pelo ventinho de sabão cheiroso e, mais de tudo, pelo rumo tomado na partida. Marchou lisinha enquanto matutava e remoía o ferro do bridão e a ingratidão do cavaleiro. Qualé!!! Nem escuitou o derradeiro batido da porteira ranheta do capãozinho e plá!!! Relinchou airosa, baixou as orelhas, o pescoço e estacou, definitiva.

– Pronto! Trapaiou. Hora ruim de virá estauta! E adiantou a reiada, o esporeio, brabeza, danação? Nem tium!!!Apeou desacorçoado, rancou o chapéu, coçou o cocuruto sem precisão, dava adeus ao compromisso de casório e… arrefeceu a tristeza no se lembrar da pomada recondita na guaiaca.

– Aaaara!!! Num custa isprementá!

Seguiu na risca os ensinos do Tuca da Inhá Afonsa no destampamento da latinha, no besuntado dos quatro dedos, sungada do rabo e vlaptvlapt no fiofó da égua.

– Viiixxxxxe mãe!!!

Disparou urrando prá adonde as fuças apontavam, nem arreparando no próximo mataburrinho estreito e sumiu na curva do arvoredo. O Amácio sorria ainda, satisfeito com os resultados:

– Remedinho danado, sô! Agora ieu curo de veiz essa birra dela, vai ser só no ameaço de destampá a lata!!! Nunca mais! Nunca mais fico de a pé!

E risalhou alto acompanhando o rastro de poeira dançando nos raiozinhos de sol.

– É. Nunca mais… Uai, mais pera aí, sô: ieu tô de a pé e é agora, agorinha mémo. Sem condução prá ir na Inácia e no dia certinho qu’ieu arresorvi de aprazá o casório. Ela vai estuporá de raiva e é até capaiz de num querê vê nem minha sombra e bandeá pro colo do Arceu, aquele zonzeira que fica arrastano asa nos pé dela. Carecia divéra de topá a Inácia, hoje, de quarqué jeito. De a pé só chego amanhã e nem recado mode mi isperá… aqui, nesse êrmo empacado… empacado…empacado tô ieu…

De viés, espiou a latinha aberta e esquecida na mão esquerda… espiou a estrada… espiou a latinha… espiou pros lados e… ninguém de testemunha… cedinho de domingo…

– Ara! pro mode de que não?

Se amoitou no de trás de uma toiceira de colonião, levou a latinha perto do nariz, assuntando o cheiro, baixou as calças realçando a bunda branca, esticou a cara prá confirmar o sozinho, espalmou um tanto bão da pomada, se orientou prá baixo no vão do rêgo e, corajosamente, atochou a bendita no fiofó…

Contam as línguas matreiras do povo do lugar que o Amácio Vaqueiro chegou na casa da Inácia meia hora inhantes da Goianinha!!! Bir!!!