Dia a Dia

Refletindo

POR DÉCIO MARTINS CANÇADO

6 de julho de 2021

Sempre que começo a escrever, penso em como ser breve, mas como conseguir ser breve, tendo tanta coisa a dizer, tanta emoção a expressar, tantos agradecimentos a fazer… pensei e decidi que seria breve, mas nem tanto… Escrever, corretamente, nem sempre é fácil. O pensamento é muito rápido, as mãos tentam acompanhá-lo, e as correções, tão necessárias, ficam para o final.

Encontrei conforto no mestre Rubem Alves, que aliviou meu sono ao escrever assim:

Cheguei onde estou por caminhos que não planejei. É um lugar feliz com o qual nunca sonhei. Nunca me passou pela ideia que eu viria a ser escritor… Não sou bom em Português, erro a acentuação, a pontuação. Sou um mau aluno, especialmente quando o professor quer ensinar-me coisas que eu não quero aprender”.

Rubem nunca entendeu a razão de alguém comentar os seus erros e não comentar o conteúdo do texto. “Eu escrevo. Escrevo mesmo sem nunca ter sido um brilhante aluno de Português. Meu domínio da gramática é limitado. Tenho dificuldades com vírgulas, com acentos, com tantos porquês, E a cada publicação de um texto, eu me pergunto: Será que deu tudo certo? Acho que melhorei com o tempo, mas tomei a decisão de escrever quando descobri que a mesma angústia acontecia com outros escritores. A maioria, muito mais importantes do que eu”.

O maior papel da educação é tocar na alma, é ensinar a ser gente, a ser feliz, a ter valores. Deixo aqui, como possibilidade não pensada, este poema de Walt Whitman, de “Sociedade dos Poetas Mortos”: “que ao homem comum ensinem a glória das tarefas de todos os dias; que exaltem em canções, o quanto os exercícios da vida não são desprezíveis“; lembrem-se: “a coisa não está nem na partida e nem na chegada, mas na travessia...”

De Fernando Pessoa, lembro-me do texto sobre os amigos: “Um dia os nossos filhos verão as nossas fotografias e perguntarão: ‘Quem são aquelas pessoas? Diremos… que eram nossos amigos e… isso vai doer tanto! ‘Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons momentos da minha vida!’ A saudade vai apertar dentro do peito. Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente… Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades… Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!

No meio de um trabalho, lembro-me de um amigo e penso: “Preciso ligar para ele”, mas, em seguida, volto ao que estava fazendo. Comento com alguém sobre aquela viagem que desejo fazer, um dia… quem sabe… Ano após ano, desejamos começar algo novo, concretizar antigos sonhos, mas fica só no desejo.

E assim a vida vai passando… e estamos sempre envolvidos com os problemas, conformados com a falta de tempo e as dificuldades… E vamos nos enganando, esperando a hora certa, a ocasião oportuna… Que nunca aparecem. O tempo passa e transforma as pessoas, as coisas, os lugares. E, de repente, perdemos o contato com aquele amigo, a viagem adiada torna-se inviável, o sonho que brilhava em nossos olhos perde o encanto.

Aí vem o arrependimento de não termos feito algo que daria novo rumo às nossas vidas… lamentamos porque o tempo não volta… fica sensação de um gosto amargo na boca. Mas não precisa ser assim – e não deve ser assim. Podemos ser agentes da nossa história. Podemos escrevê-la com frases de amor, desenhá-la com cores alegres e vibrantes… Depende de nós.