Dia a Dia

Quem tem medo do lobo mau?

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS

28 de outubro de 2021

Adoro os ritos, não apenas os sociais e públicos, mas principalmente os que acontecem na privacidade de nossa casa. São aqueles que repetimos todos os dias e de muitas maneiras produzem significado para nossa vida.

À noite, eu e meu filho temos o nosso: um jantar leve em família, uma luta de MMA sem regras (banho e escovação dental) e um convite VIP da cama para a oração noturna e para a estorinha.

Ele faz uma oração comprida e pede nominalmente pelos animais que já conhece (quase todos); quando, então, chega no leão-marinho, é a senha para eu dizer o amém final.

Nem bem finalizamos a benção sobre o leão-marinho, ele já pede: −” Mamãe, conta a do Lobo Mau!” Todas as noites o mesmo pedido, a mesma estória contada da mesma forma, se modifico a entonação, sou advertida por ele, e continuo:“ toc, toc, toc. Quem é? Sou eu, o Lobo Mau…”

É nesse universo simples da estorinha infantil que a gente se refugia, para mim não existe felicidade maior do que tê-lo em meus braços com o seu bafo azedinho de leite renovando a minha esperança.

Na estorinha, algumas vezes ele se identifica com o porquinho imediatista, e outras poucas com o porquinho previdente; e, assim, de forma imperceptível revive o seu dilema infantil diário: faço a lição de casa ou corro para as brincadeiras?

Como mãe quero educá-lo e ensinar o valor da responsabilidade, e por um momento (sem noção) me transformo numa influencer para mostrar ao meu filho: “ Os dez passos para a prosperidade.” Ou seriam os doze passos? Pensando bem, acho que são vinte e sete passos para uma vida próspera. Tal qual uma receita de bolo de jiló, peço a ele:“Por favor, meu amor, imite o Pedrico.”

Mas, ele nem liga para os porquinhos fofinhos, a sua maior inclinação é para o animal que transgride as regras e quer comer os bichinhos felizes e brincalhões.

Ele arregala os olhinhos quando ouve o “toc, toc, toc” e com o coração disparado espera o desfecho feliz, a ruína do malvado. Nesse momento, percebo que o Lobo -Mau representa todos os nossos medos infantis não ditos, o meu filho está com medo da solidão, da rejeição, da vida.

Mas, insisto com minha live chata mostrando a ele que se plantarmos melancia não colheremos laranjas, e completo com a “moral” da fábula da cigarra com a formiga.

O que mais gosto na estória dos três porquinhos(mas não posso contar para ele) é a flexibilidade dada à lei da semeadura, pois os bichinhos bagunceiros também se deram bem no final do conto. Diferentemente da fábula da cigarra e da formiga, ninguém morre de frio, de fome ou nas garras do Lobo-Mau.

Espero que com o nosso ritual noturno o meu pequeno aprenda a justa medida entre trabalhar e se divertir, e perceba como é bom ajudar e ser ajudado nos momentos de necessidade, e torço para que, quando eu não estiver por perto para afugentar os lobos maus que aparecerão para amedrontá-lo, ele conte com amigos felizes, brincalhões e leais.

Quem sabe dessa forma, eles poderão viver felizes, se não para sempre, pelo menos mais um dia de suas vidas.

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. E-mail: [email protected] gmail.com