Dia a Dia

Quanto rende um discurso de uma hora?

POR LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO

19 de julho de 2021

Há um ditado dizendo que quem fala muito dá bom dia para cavalo. Um bom e dócil cavalo, por ter uma certa “inteligência” animal, relinchará respondendo ao cumprimento, acredito eu! Mas, o ditado tem uma outra conotação. Significa que, falando demais, uma pessoa se torna repetitiva, cansativa, complexa e não se faz entender. Acontece também com quem escreve. É comum vermos textos espalhados nos vários meios de comunicação que, às vezes, com um bom esforço, conseguimos “pegar o fio da meada”. Examinando melhor, verificamos que, usando a metade das palavras expostas, com nexo, objetividade e clareza, o texto ficaria mais esclarecido, mais nítido. Há também textos curtos e sem dizer nada!

Voltando à comunicação oral, podemos observar que há muitas pessoas participando de reuniões, congressos, simpósios, eventos sociais e que, escaladas ou convidadas para falar, se preparam com tanto afinco (sentido figurado), que aparecem com um “calhamaço” de folhas de papel, onde escreveram o seu discurso. Algumas, com o material bem redigido, bem preparado e ordenado. Outras, que não tiveram tempo suficiente ou deixaram para a última hora, se apresentam não muito organizadas. Acabam se atrapalhando na apresentação. Pode ocorrer até um fiasco, caso um nervosismo de momento se manifeste. Enfim, são várias as situações de eficiência ou ineficiência na apresentação de um discurso. Tudo na vida é questão de “planejamento”, uma palavra tão simples, mas tão esquecida ou banalizada por muitas pessoas.

Quando nos referimos a um “calhamaço” de folhas de papel, podemos observar no auditório, que muitos ali presentes se entreolham com um certo ar de espanto e uma fisionomia nada apoiadora, nada apreciativa. Quando o apresentador é muito bom, competente, experiente, até que ele consegue empolgar a plateia pela objetividade de sua fala e pela qualidade de se expressar com boa eloquência. Quando não é, a sonolência põe muitos da plateia para cochilar e outra parte para demonstrar certo desconforto ou mesmo uma leve irritação, aguentando-se ali única e exclusivamente por motivos de boa educação. Já presenciei tais acontecimentos em algumas ocasiões.

Iniciei este texto me referindo a quem fala muito. Sempre recomendei aos participantes dos cursos de oratória que ministrei por umas vinte cidades da nossa região, que as pessoas galgadas à condição de oradoras ou apresentadoras de um determinado assunto, falassem apenas o que interessava e o necessário, usando as suas qualidades de boas comunicadoras e com eloquência. Se a elas foi estipulado o tempo disponível para a apresentação, ultrapassar o tempo por muitos minutos, significa uma descortesia com a organização do evento. Pode ser criado um ambiente desagradável, dependendo do exagero.

Caminhando para finalizar este texto, lembro aqui um estudo feito por Jean Hollands sobre o “rendimento” de 1 hora de discurso. Diz ele que as pessoas ouvirão 50% do discurso, ou seja, 30 minutos. Da outra metade, 30 minutos, as pessoas entenderão apenas 15 minutos. Desses 15 minutos, elas acreditarão em 7,5 minutos. Desses 7,5 minutos, lembrarão apenas de 3,75 minutos. Vejamos que, estando completamente correto o autor do estudo, ele conclui que a maior parte de um discurso de 1 hora não será compreendida pelo auditório. Mesmo que nesse estudo haja “uma certa margem de erro”, como ocorre nas pesquisas estatísticas, pois nada é exatamente 100%, nos veremos em situação de acreditar no velho e antigo ditado que mencionamos no início: “Quem fala demais dá bom dia para cavalo”.

Imaginemos agora, como deveriam ser entediantes, cansativos e desprezíveis os discursos de certas autoridades políticas do passado (ou mesmo de hoje) com duração de várias horas. Dizem que alguns falavam durante nove horas. Nos altos tribunais, também sabemos que são gastas várias horas para se falar o óbvio e dizer sim ou não no final. Procuram pelo em casca de ovo ou será mero ufanismo profissional? Vai saber, hein! Enfim, planejamento para tudo na vida é o melhor caminho. Mesmo assim, imprevistos acontecem e atrapalham. Aí, é preciso ajustar as velas conforme o vento. Improvisação é mais qualidade de grandes artistas quando atuam em cena. Na vida, precisamos planejar.

LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO professor de oratória e de técnica vocal para fala e canto em Carmo do Rio Claro/MG, ex-professor do ensino comercial com reg. no MEC, formado no curso Normal Superior pela Unipac.