Dia a Dia

Pessoas Folclóricas

POR SEBASTIÃO WENCESLAU BORGES

17 de fevereiro de 2021

Cada cidade, principalmente as do interior desse nosso mundão brasileiro, em determinadas épocas tem perambulando por suas ruas pessoas sem maldade, gente simples, que se tornam figuras folclóricas. Passam consequentemente a fazer parte da vida de uma cidade em diferentes gerações e precisam ser lembradas mesmo sendo pessoas simples ou de manias, pois fazem também parte da história da cidade.

E em nossa cidade de Passos, eu e muitos da faixa de minha idade conhecemos e convivemos com algumas pessoas que faziam suas andanças pela cidade e viviam a vida difícil, mas sempre sem maldade, que ainda são muito lembradas: Assim era João Batatinha, baixo, magrinho, andava escorado em sua bengala. Cacho de Coco era o apelido, seu nome João, baixinho, fala fina e de conversa alta, e por onde chegava ia contando suas lorotas.

Zé Sapo, vendendo canecões e canequinhas, era folheiro, propunha sempre uma aposta a quem não sabia sua fama de comedor. Chegava a comer duas latas de caçarolas ou chupar três melancias e dizia: “Se eu não der conta, eu pago”! Zé Margarida era outro que passava quase diariamente pela Sapataria, andava com uma maleta preta vendendo umas latas de tinta e falando mais que o homem da cobra.

Quando morava no bairro Coimbra, nos confidenciou que às vezes ganhava galinha branca na granja do Betinho, passava tinta preta e à noite as vendia como se fossem galinhas pretas para algumas pessoas fazerem despacho nas encruzilhadas! Cinderelo, bom de papo, tinha amizade por todos os bares da cidade! O Mudo do Tula, com seu grande paletó, nos bolsos guardava tudo que ganhava!

A Cebolinha: certa vez Sô Vicente Reis, o Sabino e eu éramos diretores do “Lar dos Idosos” da SSVP, algumas pessoas nos pediram para que ela fosse para o Asilo. Tentamos leva-la, mas ao chegarmos até ela, ela nos falou: “Meus filhos, ainda vou farrear e beber muita pinga, e quando chegar a hora eu procuro vocês”! E cumpriu tudo o que falou, e viveu seus últimos dias no Asilo, com decência e paz! Chupa Ovo, desengonçado e lento, com a boca sem os dentes, com seu falar enrolado, sempre de bem com a vida dando seus sorrisos mostrando e sua boca murcha. Foi engraxate por um período de tempo, vivia sua vida com dificuldade, mas muito direito.

Certa vez, já doente, e não tendo lugar para dormir, passou a dormir na Sapataria em frente ao Passos Clube sem nunca nos ter causado nenhum prejuízo. Maria Tomate, que de longe a molecada gritava, e de perto corriam de medo de seu porrete! E a Marta Rocha, que ao passar por um bonito rapaz, sempre parava, mostrava seus bonitos olhos azuis e fazia sua declaração:”I love you!” e ainda traduzia na hora: “Eu te amo meu amor!

Também fez parte das andanças nas ruas de Passos o Gaspar, um anão que tinha uma pequena carroça puxada por um bode, o Bia, carregador de malas na rodoviária, com seu famoso assobio. A Piti, na ponta dos pés mostrava seu rosto na janela da Sapataria e com sua voz grossa falava: “Oh Tião, tem uma sandália pra mim?” E já mais recente, com suas vestes coloridas pelas ruas de Passos lembramos da Aparecidinha. Sempre presente na ala das baianas da Escola de Samba Passense, nos nossos saudosos carnavais e sempre enfeitando nossas solenidades cívicas com saias bem rodadas, adornos chamativos, com o rosto bem pintado, falante como ela só, foi uma verdadeira embaixatriz da alegria!

Maria Chuá, João Pipa, Dodô, Chico Teia, Zezito, Dentinho, Deixa que eu Chuto e outros como O João Batatinha, Cebolinha, Marta Rocha, Maria Tomate, Piti, Manda Saia, Dilo, Zé Sapo e tantos mais passaram a morar no Asilo (Lar dos Idosos da SSVP). Sem ouvirem a algazarra e os gritos da molecada apavorando seu sossego, eles viveram seus últimos dias de vida com muita tranquilidade, em dormitórios decentes, cercados de muitos cuidados, muito amor e carinho.

Enfim, essas e muitas outras pessoas marcaram época em nossa cidade e serão sempre lembrados com suas tolas manias. Estarão sempre pertencendo à galeria das figuras folclóricas que perambularam pelas ruas e praças e para muitos, como eu, estarão sempre vivos na mente do povo de nossa Passos! É o tempo passando e a gente “Memoriando”!