Dia a Dia

Pelos Trilhos da História – Final

POR SEBASTIÃO WENCESLAU BORGES

10 de fevereiro de 2021

Inauguração da Estação Ferroviária em Passos “Nem passado, nem futuro: Lembranças são válidas para nos ensinar!” Maria Fumaça, Misto, Expresso, era como os Passenses chamavam o trem de ferro. Ver o trem passar, ouvir seu apito e o barulho das rodas de ferro nos trilhos é uma boa lembrança que sempre tenho na memória.

A inauguração da Estação Ferroviária em Passos é uma história ouvida de boca em boca que o menino Tiãozinho ouviu de pessoas que viveram naquela época, e foi assim que alinhei no pensamento o dia festivo de sua inauguração: Bandeirinhas estendidas por toda a plataforma, discursos, aplausos e vivas, pipocando no ar estouros de foguetes, alvoroço das pessoas pela plataforma empilhada de gente, banda de música, autoridades ladeando o Agente Executivo (cargo equivalente a Prefeito naquela época) Coronel João de Barros, ele com seu jeitão, alto, magro, nariz comprido, vermelho, bigode e cavanhaque, pescoço estirado, andando de um lado pra outro, analisando todos os detalhes, preocupado com o atraso da Mogiana, e a todo momento tirava da algibeira o relógio suíço entrelaçado por uma corrente de ouro.

Povão aglomerado em volta da Estação, políticos com seus melhores ternos, colarinhos engomados acompanhados por suas senhoras muito bem trajadas com vestidos longos, sapatos de saltos, leque e sombrinhas coloridas. Um misto de emoção tomava conta daqueles que pela primeira vez iam ouvir o barulho das rodas dos vagões escorregarem lentamente sobre os trilhos da ferrovia, e a maioria se aglomerando em cima de barrancos, em pontos estratégicos para ver pela primeira vez a bichona passar! E o apito rouco da Maria Fumaça se fez ouvir quando ela atingiu o alto da Penha, e veio fazendo grandes curvas e apitando sem parar.

Vinha rompendo, numa fumaceira danada, saindo faísca por todos os lados, passando pelos pontilhões que cruzavam a cidade, parecendo um monstro bonito, puxando os vagões, se exibindo, adentrando bem devagar o pátio da Estação, se aproximando da plataforma fazendo um grande barulho com a freiada dos ferros sobre os trilhos, e entre um vagão e outro estava o guarda acenando para o povo, todo imponente, parecendo um general, exibindo sua farda branca e boné azul marinho.

Assim chegou! Soprando fumaça para todo lado, fogos pipocando nos ares, a banda tocando, políticos sorrindo, e o povão numa alegria irradiante saudando com palmas e vivas. Esse é o trem que por aqui passou, se fez saudade, deixou marcas em cada um que teve o privilégio de fazer uma sacolejante e vagarosa, mas gostosa viagem, como eu fiz muitas vezes em minha infância e juventude.

A viagem era demorada, mas as paisagens diante dos olhos compensavam a demora de se chegar ao destino marcado, e quando a noite chegava, seu farolzão ia rompendo o nevoeiro da madrugada, serpenteando entre lavouras, morros, matas, pontes sobre rios, passando por vilarejos que hoje viraram cidades, transportando pessoas em busca de uma vida melhor em outras regiões, e a cada cochilo o sonho de um novo lugar e uma nova oportunidade. As viagens de trem deixaram saudade, por onde o trem passava levava alegria, diversão e animação, e suas saudosas Estações são lembradas como local de encontro, reencontros, despedidas, e onde se iniciava a maioria dos namoros.

Dizem que a linha de Passos seria prolongada até a cidade de Piumhi, no prosseguimento foram feitos vários cortes nos morros, mas os trilhos jamais foram colocados, ficando assim a nossa Estação como fim de linha. Durante 56 anos o povo de Passos foi servido por uma estrada de ferro que foi inaugurada em 11 de dezembro de 1921, desativada em 1977, e a retirada dos trilhos começou em 14 de janeiro de 1986. E o tempo, faminto pelo progresso, chegou levando os trilhos, mas o trem continua na memória daqueles que esperavam o seu apito para despertar do sono e começar sua vida cotidiana.

O trem, quando chegava, trazia sempre a esperança na bagagem e de volta a saudade que ficava entre nós. Agora é só saudade e lembranças daqueles que viveram esse tempo do trem de ferro, de seu apito e seu sacolejo, adentrando ou saindo da Estação da cidade de Passos e das Estações das cidades de nossa região. Hoje, a Estação ainda está lá. Dizem ser a “Estação Cultura de Passos”. E o tempo passa! Enfim, a viagem na imaginação não leva para tempos já vividos, mas deve ajudar a viver bem e mais feliz os dias de hoje ao despertar tantas emoções passeando pelos trilhos da história! Quem viveu esse tempo tem muita saudade e muita história para contar! É o tempo passando e a gente “Memoriando”!