Dia a Dia

Pega Outro Em Meu Lugar!

POR SEBASTIÃO WENCESLAU BORGES

14 de abril de 2021

Sem as tantas tecnologias que desfrutamos nos dias atuais, as prosas do dia a dia corriam de boca em boca. Em minha infância, ao ouvir dos mais velhos essa riqueza que é suas narrativas de casos, causos e histórias, eles deixavam nossa imaginação navegar sem saber se o assunto desses talentosos proseadores era verdade ou se eram inventados. E nessa navegação guardada na memória de menino, passo para esse texto dois casos sobre velório:
Bertolino era tido como ingênuo por viver dando risadas para mostrar sua dentadura com alguns dentes de ouro.

Mas o grande problema era sua dentadura ser frouxa, e ao conversar ela sempre saía de sua boca e quase caía! E lá num certo dia morre seu querido patrão, um rico fazendeiro considerado por ele seu pai de criação. Velório em casa, muito concorrido, e lá estava o coronel no caixão, vestido de terno azul marinho, bigodão branco, mãos cruzadas no peito, calçado com meias de seda e pés unidos por um lenço que os amarravam. Outro lenço passava pela cabeça e por baixo do queijo, parecendo que o coronel morreu com dor de dente. Viúva, filhos, noras, genros, netos e bisnetos em volta do caixão, e Bertolino já com umas e outras doses na cabeça chega ao velório.

Chapéu de palha na mão, ele abaixa ao lado do caixão fingindo chorar, e sua dentadura frouxa escapa de sua boca e cai no meio das flores que enfeitavam o corpo do coronel. Sem que ninguém visse tentou apanhar a bendita perereca, e quanto mais ele tentava, mais ela ia por baixo do corpo do defunto. Sem conseguir pegar a dentadura o jeito foi tapar a boca com a mão o resto do velório. Na hora da despedida, família toda chorando, alguém pediu que Bertolino falasse algumas palavras para aquele que em vida o considerava um filho. E ele, fingindo chorar, tapando sua boca murcha com as mãos, com a voz soluçando, falou: “Você foi meu querido patrão e meu segundo pai, despeço dizendo que o senhor vai, e junto vai levando o meu último sorriso!

O outro caso aconteceu com o Chico da Maria. Amparado por duas muletas, Chico andava com dificuldade, mas seu “forte” era passar a noite com defunto: não perdia um velório! E num certo dia morre um senhor seu padrinho. Família numerosa, homem respeitado no bairro, e como era antigamente, velório feito em casa, com o defunto exposto no caixão no centro da sala amparado por duas cadeiras. Velas ardentes acesas, muitas rezas, visitas chegando e saindo prestando sua última homenagem ao morto e à família. Parentes e amigos, muito choro rodeavam o caixão, fora de casa rodinhas, bate-papo, piadas para distrair e ver a noite passar.

Lá pelas tantas da madrugada, lamparinas fumegando pelas paredes, mulherada rezando, chuvinha fina caindo, muitos sentados “vendo o boi passar”, (cochilando) e lá estava o Chico, com seu enorme paletó sentado próximo do corpo de seu padrinho, deixando as muletas ali perto. Um amigo (Zé Fumaça) a seu lado e do finado, com a cabeça cheia de quentão e cachaça, ao levantar, tropeça na perna de uma das cadeiras. O finado Antero balança, alguém vê e grita: “O defunto mexeu”!

O povo se assusta e apronta uma danada correria. Era gente acordando, mulheres gritando, crianças chorando, pessoal sem rumo correndo sem destino, pulando janelas, saindo pela porta da frente e porta da horta, vizinhos acordando assustados, galos cantando fora de hora, galinhas alvoroçadas pulando do poleiro se misturando na correria e sendo pisoteadas, chapéus e guarda-chuvas sendo deixados para trás, um salve – se quem puder e ninguém mais ficou dentro de casa.

E o Chico, sem poder andar, sozinho com o defunto, ali naquele aperto e com muito medo, esquece até de suas muletas e sai correndo, caindo, cambaleando como pôde para a horta, e dá um voo no muro, mas seu paletó, muito grande, se prendeu num galho seco de um pé de limão. Aí foi só grito que se ouvia do Chico: “Pelo amor de Deus meu padrinho, logo eu que não ando, tenha dó dessa pobre alma, pega outro no meu lugar!” Nós, meninos, quando ouvíamos alguém contar esse caso, dávamos gostosas gargalhadas! É o tempo passando e a gente “Memoriando”!