Dia a Dia

Passos: 163 anos!

POR SEBASTIÃO WENCESLAU BORGES

12 de Maio de 2021

O presente aponta para o retrato que queremos guardar daquilo que fomos um dia. Sem toda essa tecnologia e meios digitais, fiz uma viagem pela memória nesse pedacinho de terra desse nosso mundão que é a nossa cidade de Passos, completando agora, sexta-feira, 14 de maio, 163 anos de emancipação política.

E muitas lembranças vieram: das casas com sol se infiltrando pelas telhas. Toda casa tinha seu fogão à lenha, isto bem antes de tantas moradias acabarem com as grandes hortas, suas grandes mangueiras, suas sombras, e suas doces mangas. Nossa cidade caminhava tranquila e sem transtornos. Casas com suas portas fechadas somente com o trinco, tardes calmas, cadeiras e bancos, familiares e vizinhos numa conversa boa em frente das casas! Era uma conversa, uma lembrança, uma história contada de pai pra filho, de avô para neto, de mãe para filha.

Á noite, na cozinha, acontecia o encontro da família: fogão de lenha aceso, barulhinho do fogo, bule esmaltado na chapa quente, caldeirão de ferro cozinhando feijão, e pipoca pipocando na panela. Geladeira e fogão a gás eram artigos de luxo, telefone e carro, quem possuía era considerado rico. Não se conhecia televisão, e pelo radio ouvia-se tudo; notícias, músicas, novelas radiofônicas, futebol e programas humorísticos.

Pela madrugada, padeiros com grandes cestos no ombro, iam de casa em casa colocando os pães ainda quentinhos em bonitas sacolas com o nome bordado e escrito “pães”, que ficavam a noite toda nas janelas, ou nas maçanetas das portas, sem perigo de roubo.

Pela manhã, caminhões leiteiros chegando e trazendo o pessoal da roça para fazer suas compras e afazeres na cidade, lenheiro vendendo sua carroça cheia de lenha, leiteiros a cavalo voltando para a roça após terem feito suas entregas. Oriundas das roças, carroças vendendo verduras, frutas, frangos e ovos, carreiros carreando os carros de bois com suas rodas cantando ou gemendo com a grande carga.

Lembranças das vendas e armazéns onde se comprava de tudo, fregueses eram atendidos no balcão onde ficava uma balança com vários pesos de quilos e gramas, e dos mascates mascateando, indo de casa em casa com suas malas cheias. Muitas eram as pessoas que se acostumaram a conhecer as horas pela posição do sol no céu, pelo badalar do relógio da Matriz, ou pelo rouco apito do trem, e nos meses de maio, junho e julho, fazia frio de bater o queixo. Agosto era mês de ventania, e em tempos de chuva, os homens protegiam o calçado usando galochas.

Policiamento na cidade era feito pelo cabo Silvano e outros poucos soldados que faziam o patrulhamento num velho jipe, e pelas ruas, quase todas ainda sem asfalto, circulavam Fordinhos, Cadilacs, motores, algumas lambretas, DKV, Vemaguetes, Ford V, Dodge, Gordini, e nas esquinas, motoristas eram obrigados a usar a buzina!

Todos os dias, ouvia-se um ronco agudo sobrevoando nossas cabeças: eram grandes aviões decolando do Campo de Aviação localizado atrás do Campo do Esportivo, e o trem de ferro saindo ou chegando á Estação. Quando chegava trazia sempre esperança na bagagem, e de volta a alegria e a saudade que ficava entre nós.

O repicar dos sinos nas igrejas anunciava algum acontecimento. Missa em latim, padre com os coroinhas a seu lado, e os fiéis participavam cantando os eternos cânticos: “Queremos Deus, Bendito,Coração Santo” e muitos outros já esquecidos.

Na memória de menino que um dia tornou-se adulto, idoso, rugas no rosto e cabelos branqueados, por essa vida afora, vez ou outra chegam lembranças da Praça do Rosário, onde durante o dia, lá estava o D.G. em seu serviço de alto-falante orientando os passageiros sentados nos bancos com seus malotes e embornais, os horários entre chegadas e saídas das antigas Jardineiras.

E também lembranças da Praça Matriz: o povo parado na Hora da Benção, jovens de terno e gravata curtindo o “rela”, mulheres circulando de um lado, e no sentido contrário os rapazes facilitando os flertes, ou ouvindo músicas do microfone do alto do pequeno prédio do Cine Roxy, casais de namorados sentados num banco curtindo o namoro ou assistindo um filme no escurinho do cinema.

Enfim, assim entre tantas outros acontecimentos daquela época, fiz um resumo da rotina que fez parte de minha infância e juventude de uma época não tão distante, mas bem diferente dos tempos atuais, nesse pedaço de terra mineira de 163 anos de sua emancipação político-administrativa que é nossa cidade de Passos!