Dia a Dia

Parentesco

9 de Maio de 2020

Uma das manias mineiras mais arraigadas, desde o tempo do onça, era a catira. Prá moçada de hoje, ligada no rock e na instantaneidade dos computadores, catira significava pequenos negócios envolvendo trocas e voltas em dinheiro, geralmente com os mais espertos passando uma manta nos desavisados. Como as coisas andavam mais lentamente, os catireiros tinham todo o tempo do mundo para assuntar a mercadoria, pôr a maior quantidade possível de defeitos nela, desvalorizando-a até fechar a transação, mas somente depois de indagar pela saúde dos meninos, de elogiar o café com broa da mulher, de divagar pela falta de chuvas, das condições da estrada e um pouco de política.

Em Passos, havia antigamente uma dupla imbatível nêsse sistema comercial. Para o Sô Zico Danese e seu fiel companheiro sô Dargiso, tudo tinha um prêço e era passível de compra e venda. Ambos motoristas, tretou e relou lá iam os dois nas mais escondidas bibocas e cafundós da região atrás de batatinha, cebola, banana, cachaça, umas vaquinhas e levando querosene, fumo, tecido, rádio e o que mais fôsse necessário ou encomendado.

O contraste entre ambos fazia até duvidar de uma boa convivência: enquanto o Zico era grandão, claro, falante, o Dargiso, negro e baixo, carregava uma índole sistemática, agressivo se lhe faziam menção da cor, pouca prosa, talvez devido à gagueira misturada com timidez. O primeiro jogava na ofensiva, travando os contatos iniciais, enaltecendo a qualidade de sua mercadoria e o segundo se encarregava de abaixar o prêço, armando caretas durante a avaliação dos produtos dos outros.
Certa vez, a fiscalização apertou e nada entrava na cidade sem passar pelas blitzes armadilhadas por um pessoal especialmente vindo de Belo Horizonte. Aquilo trouxe um transtorno danado aos catireiros, acostumados a travar seus negoceios na bistunta, ignorando a papelada oficial e os impostos embutidos neles.

Pois bem. O Zico e o Dargiso tiveram notícia dum fulano prás bandas do Guapé que precisava dispor duma porcada caipira, caruncha. Por medida de segurança, providenciaram o formulário da nota fiscal para vinte suinos, montaram no caminhão e ainda foram pegar o almoço na propriedade do criador. Negacearam o de costume e conseguiram um porco de quebra, totalizando vinte e uma cabeças. Aguardaram a brisa fria da entrada da noitinha para tentar uma escapatória da fiscalização e, quem sabe, aproveitar a nota numa outra compra. Deram com os burros nágua! Nem bem rodaram umas duas léguas, toparam um conhecido que vinha de Passos informando a barreira fiscalizadora inescapável, onde a moçada do govêrno não estava de brincadeira, exigindo os documentos até da roupa de muda!

Fazer o que? O problema era do porco a mais. Alegar êrro na conta devido à folia e brabeza dos animais? Bobagem. Oferecer propina? Podia dar multa pesada e cadeia. Aí o Zico teve a idéia! Pegaram um caruncho mais graúdo na carroceria, conseguiram a muito custo vestir-lhe um paletó de brim, fincaram-lhe um chapelaço na cabeça e o espremeram na boléia, sentado que nem gente no meio dos dois, com o Dargiso se encarregando de imobilizá-lo num abraço enquanto o companheiro apearia para distrair os fiscais. Fecharam bem os vidros do caminhão de modo a embaçá-los e dificultar a visão externa e o grunhido do porco embrulhado.

A esperança dos “hôme” terem ido embora se desfez no acenar autoritário de um deles, mandando encostar o caminhão. O Zico saltou, depressinha, sacudindo a nota fiscal, assumindo a feição tranquila da honestidade. Do Dargiso, lá dentro, só se via o branco dos olhos se mexendo, ora na direção do porco, ora pajeando se o fiscal aproximava, numa nervosia difícil de represar.
Nisso, realmente, ele se aproximou e ordenou que abrisse a porta. O Zico rebateu a ordem, argumentando que o rapaz sentado no meio do banco estava com febre e o frio poderia agravar a doença.

– Então, abaixa o vidro.

O Dargiso abaixou uma beiradica de nada, tentando tapar a visão do fiscal com a própria cara, cada vez mais nervoso. Quando o desfecho parecia próximo e de bom final, o fiscal firma a vista no porco empaletozado e pergunta inocentemente ao Dargiso:

– Quem está aí com você, moço? Seu irmão?

Prá que! Perdendo completamente as estribeiras, o Narciso abre a porta bruscamente e parte prá cima dele:

– Nã…não. Que…quem… tá a…qui…qui é va…va…va…ca qui…qui ti pô…pôs no mu…mun…mundo!

O Zico arrancava os cabelos enquanto a carga era apreendida e pelejando pros “home” retirar a voz de prisão…