Dia a Dia

Parabéns, Fernanda

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS

29 de julho de 2021

Quando eu era criança adorava a pergunta: “E aí, Patrícia, o que você quer ser quando crescer?” A resposta estava sempre na ponta da língua: “Quero ser professora”. Me espelhava nos meus pais, tios e tias, e amava ouvir suas conversas sobre educação e Paulo Freire.

As profissões “escolhidas” pela maioria das crianças da época eram as tradicionais, como Magistério, Medicina, Engenharia e Direito. Algumas meninas mais ousadas desejavam ser cantoras, bailarinas, atrizes circenses e os meninos queriam ser jogadores de futebol, quando ainda nem existia o brilho na vida privada desses atletas.

A internet chegou e com ela o mercado profissional se diversificou, se fizéssemos uma enquete hoje para saber qual a profissão mais desejada pelas crianças e pelos adolescentes, acredito que boa parte deles, responderiam: “Quero ser influenciador digital ou youtuber”.

Muitos deles só idealizam os ganhos, mas não imaginam as perdas dessas profissões tão cobiçadas.

Vivemos numa sociedade do espetáculo, o momento só existe após a nossa postagem. Não postei, logo não existo. Será que eu nasci? E assim perpetuamos pelas redes sociais nossos momentos fascinantes e frases de efeito para nos sentirmos validados socialmente.

Acredito que esta seja uma estrada de via única, mas com possibilidades de alguns sinais amarelos e, quem sabe, uma rotatória indicando outra direção.

Suponho que Fernanda também acredite nisso; pois sua atitude na semana passada colocou um sinal amarelo nessa estrada e nos fez refletir como pais sobre o restante do caminho a trilhar.

Fernanda é uma médica paulistana que decidiu retirar a filha adolescente das redes sociais, sem que a menina desse algum motivo justo para isso. Por meio de um texto lúcido que viralizou, ela justifica para os mais de dois milhões de seguidores da blogueirinha os motivos de sua decisão.

Não acho correto surfar nas ideias da médica, por isso recomendo a leitura do seu texto na íntegra (Google- Fernanda Rocha Kanner). Ela aborda de uma maneira simples questões como educação dos filhos, necessidade de pertencimento a um grupo social, alienação intelectual e autoaceitação.

Porque temos uma opinião formada sobre tudo, o assunto bombou. Aqueles que julgam os outros usando a medida de si próprios, argumentaram que o objetivo da mulher foi buscar notoriedade.

É, parece que não existe vida fora do binômio “crescer e aparecer”.

Os influenciadores digitais conseguem visibilidade porque os seus conteúdos postados nos conquistam de alguma forma. Seja pelo estilo de vida, pelo senso de humor, pela espiritualidade, pela criatividade e até mesmo por mera competência de suas equipes de apoio. De uma maneira imperceptível, criamos com eles uma relação de consumo.
Mas, como somos consumidores exigentes, queremos que eles honrem o produto que consumimos. Desejamos que os seus posts sejam coerentes com o personagem inventado e que eles continuem lindos e filtrados distribuindo perfeição.

Pois, imperfeita é a vida real. Por isso, no primeiro deslize (incoerência) do nosso seguido, praticamos o cancelamento e destilamos opiniões cruéis pelas redes sociais.

Se para um adulto já é difícil lidar com as críticas mordazes, penso que para uma criança ou um adolescente, que são pessoas em desenvolvimento e vulneráveis, deve ser emocionalmente ainda mais doído.

Fica aqui um sinal amarelo piscando para nós, pais, seria mesmo bom para os nossos filhos, enquanto crianças ou adolescentes, serem influenciadores digitais?

Nos esquecemos que apenas uma minoria deles -quando se tornarem adultos- irá para as Maldivas ou será convidado para o carnaval em Salvador. Outra parte repetirá comportamentos padronizados e poderá se tornar refém das expectativas alheias para se reconhecer como pessoa no mundo. Talvez percam o grande barato da vida que é descobrir a “dor e a delícia” de ser quem somos.

Fez muito bem a médica paulistana, estar na contramão do que o mundo espera é difícil. Achei muito válida a sua atitude com o fim de proteger a sua cria, já dei muitos likes para ela e não me esqueci de inscrever no seu canal.

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. E-mail: [email protected] gmail.com