Dia a Dia

Pais cuidadosos e poderosos

POR DÉCIO MARTINS CANÇADO

23 de março de 2021

Millôr Fernandes, em um desabafo um tanto nostálgico e melancólico em determinado momento de sua vida, faz uma reflexão sobre quem somos frente à realidade em que vivemos, ao meio em que estamos inseridos, a tudo aquilo que acreditamos, ou que nos ensinaram a acreditar.

Diz ele: “Identidade: Quem é que sou? Como me espanto! Já não sou quem fui. E já não me revolto mais. Aliás, já fiz três revoluções, e em todas eu perdi. A primeira, contra Deus, e Ele me venceu com um sórdido milagre. A segunda foi com o destino. Ele me bateu, deixando-me só, com seu pior enredo. A terceira, contra mim mesmo, e a mim me consumi, e vim parar aqui”.

Será que somos uma geração de adultos que não terá vez e voz na história da humanidade? É a pergunta que se faz toda vez que se presencia, ou se vivencia, uma conversa entre pais e filhos, professores e alunos, jovens e velhos.
O poeta Mário Quintana registrou, em uma de suas famosas sínteses, a situação de desconforto em que nós, adultos da modernidade, deparamo-nos.  Diz ele: “Quando guri, eu tinha de me calar à mesa: só as pessoas grandes falavam. Agora, depois de adulto, tenho de ficar calado para as crianças falarem”.

Esse mesmo sentimento de constrangimento, impotência e indignação tem sido uma constante nas reclamações cotidianas dos adultos que teriam a responsabilidade de educar. Uma cena familiar corriqueira é aquela em que a mãe lança uma inofensiva pergunta, do tipo:  “Filho, você já arrumou seu quarto”?  E o queridinho da mamãe responde: “Ah, mãe! Depois! Agora estou ocupando, lendo minhas mensagens no celular e conversando com um amigo no WhatsApp”.

A resposta soa tão forte, tão veemente, que a mãe, atormentada pela culpa, seja por qual motivo, se questiona se está pegando pesado demais, se está exigindo muito da ‘pobre criança’. Em seguida, conclui que ele estuda demais. Não tem tempo para brincar. Está muito cansado.

Então, resolve que vai, ela mesma, arrumar o quarto, e fica pensando: “Assim, ele não me desgasta, reclamando, esbravejando, e terá mais tempo livre para si. Afinal, os veículos de comunicação nos mostram, sem parar, inúmeros artigos de especialistas acusando-nos de excesso de tarefas impostas às crianças e aos jovens, portanto, devo estar mesmo exagerando”. A partir dessa constatação, a decisão de limpar o quarto do seu filho e de não exigir que ele arrume as suas coisas espalhadas pela casa tem uma ‘desculpa’: está justificada e fundamentada ‘cientificamente’.

Se analisarmos essa questão, nas devidas proporções, é possível perceber pelo menos um elemento que demonstra a renúncia da mãe à sua condição de pessoa adulta e de educadora: resolveu o problema com base em vozes externas à sua própria voz, à sua vontade e convicção. Não estamos sugerindo, com isso, que se tapem os ouvidos para os conhecimentos e saberes existentes sobre determinado assunto. Estamos afirmando que esses conhecimentos não substituem os da mãe, como responsável pela construção de valores, regras e limites ao seu filho.

O psiquiatra José Outeiral defende a ideia de que as nossas crianças e jovens precisam sentir a ‘força interior’ dos seus responsáveis. Essa necessidade surgiu, historicamente, da pequenez e solidão do homem no universo infinito. Ele necessita de alguém poderoso, proporcional ao seu desamparo, que esteja sempre por perto e sabendo de tudo. Essa necessidade repetiria a necessidade da criança que, em sua fragilidade, carece de pais cuidadosos e ‘poderosos’.

Quando os responsáveis pela educação, na sua vez de decidir, não ouvem também suas vozes interiores, fecham as portas para suas próprias histórias e não deixam fluir a força, a coragem e a firmeza que são peculiares ao adulto cuidadoso, determinado, imprescindível para a formação de novas gerações, igualmente fortes, corajosas e responsáveis.

Surdos a si mesmos, os ‘mais velhos’ abdicam também de sua autoridade e responsabilidade para com a formação de seus filhos. Eles se tornam ‘fantasmas’ de si mesmos, reféns de todos os ‘barulhos’ que ecoam à sua volta, e inseguros com relação ao tipo de sujeitos que desejam formar para a sua própria família.

Também se tornam ‘fantasmas’ da sociedade, assombrando-a com a sua ausência, passividade e permissividade. Cremos que a geração dos adultos de hoje não perdeu somente a voz à mesa, como lamenta Mário Quintana. Estamos perdendo também a mão e o coração na educação das nossas crianças. (Baseado no texto de Maria Beatriz Sandoval)