Dia a Dia

Os “quase”

POR PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS

13 de Maio de 2021

Tem gosto pra tudo nesse mundo. Por um certo tempo, o meu foi estudar uma matéria chamada Epidemiologia. Juro pra vocês que sou normal, mas tinha prazer em saber sobre diagnóstico coletivo de enfermidades, tratamento e controle de doenças num público alvo. Gosto não se discute e hoje eu estaria super na moda.

Há vinte e cinco anos achava inconcebível aparecer uma doença que fosse capaz de infectar pessoas e se disseminar para o mundo todo, poucos vírus andavam de avião, só os mais ricos e cultos. Nos meus estudos sobre epidemiologia, o capítulo intitulado Da Pandemia sempre foi mal lido, era como se fosse uma estória da carochinha da ciência.

Hoje a pretensa estória pueril dos meus estudos epidemiológicos é real e foi transformada num romance de suspense ao estilo Stephen King. Todos os dias milhares de covas são abertas e inúmeros corpos são empilhados em refrigeradores. Desespero, gritos, choro, medo e loucura.

Morrer deve ser bem ruim. Sempre argumentei que aquele falatório nos velórios não seria apenas indelicadeza das pessoas, mas uma maneira para silenciar os pensamentos realistas que nos assombram nos eventos fúnebres. Afinal, como já disse Fernando Pessoa: “somos cadáveres adiados que procriam

No romance de suspense da vida real cada um torce para continuar como coadjuvante, a mera possibilidade de ganharmos um papel principal nesse enredo triste adoece a nossa alma. Dá muito medo. E medo é medo. Alguns não se explicam, até hoje minha barriga revira quando ouço a música do Plantão do Jornal Nacional, tenho a certeza de que o Presidente Tancredo Neves vai ressuscitar e morrer de novo.

Também já fui assombrada por folhas de bananeira bailando ao vento, eram os braços da loira com algodão no nariz do Grupo Escolar Wenceslau Braz me convidando para um último abraço. Medos ilógicos e irreais. Fruto de uma distorção interna da realidade externa.

Mas o que estamos vivendo hoje é bem real, os fatos falam por si, não apenas pelas estatísticas trazidas pelos jornais, mas pelos eventos com pessoas tão próximas da gente. Desculpem-me pela novidade. Por isso, encolhi meu dedo duro contra aqueles empresários mineiros que foram vacinados com soro fisiológico pela falsa enfermeira. Já pensaram numa vítima que precisa se esconder da condição de vítima?

Eles foram “quase vítimas” e também “quase espertalhões“, ficaram no meio do caminho entre um e outro. Foram “quase vítimas” porque assim como acontece em outros golpes como do bilhete premiado da loteria e da pirâmide, os ludibriados não são nada inocentes. De certa forma vislumbram a possibilidade de levar algum tipo de vantagem.

Foram “quase espertalhões” porque apesar da estratégia de guerra elaborada para serem vacinados ,não conseguiram ser imunizados. No meio do caminho tinha alguém muito mais esperto do que eles. Passaram vergonha nacional. E como já fui fura fila de banheiro de buteco e também porque morro de medo do coronavírus, fica aqui minha solidariedade.

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais.