Dia a Dia

Os lugares errados da vida

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS

24 de junho de 2021

Sempre me intrigou essa história de estar no lugar errado na hora errada. A árvore centenária tomba e atinge em cheio o motociclista que trafegava no trajeto inusual.

A laje da marquise desaba no instante em que o pedestre para pra atender ao celular. A bala perdida encontra a fina veia do pescoço jovem que foi à igreja.

Não vejo outra explicação para a notícia bizarra da semana passada: o pescador de lagosta estava na hora errada ,no lugar errado e quase foi engolido por uma baleia jubarte.

Já não posso dizer o mesmo para baleia Jubarte. Provavelmente, o seu relógio biológico já marcava a hora exata para procurar seu restaurante favorito naquele oceano de possibilidades.

Contaram-me que para manter em forma o seu corpinho de quarenta toneladas, ela se alimenta de pequenos peixes, crustáceos e lulas.
Por isso, na hora de seu self -service, mantém a boca aberta para abocanhá-los em maior quantidade.

Imagino que, assim como nós jogamos a comida de um lado para o outro na boca até identificarmos aquele fio de cabelo indesejado , a baleia jubarte deve ter rodopiado o pobre pescador em sua bocarra.

O final foi alegre, o mamífero marinho cuspiu o felizardo e o fato virou notícia mundial com direito a comentários de especialistas na área.
Segundo o pescador, foram quarenta segundos esmurrando e se contorcendo dentro das mandíbulas poderosas do animal , até sentir as contrações do útero oral da baleia o expelirem para o mundo. Ele renasceu com alguns hematomas.

Pensei nos lugares errados que a vida nos coloca( e, principalmente, no que escolhemos estar) .Relacionamentos falidos, sonhos adormecidos, amizades artificiais, obrigações sociais insuportáveis, estagnação no processo terapêutico, profissão imposta pela família.
Já pensaram no desatino de termos que escolher uma profissão aos dezesseis anos de idade? Nessa idade eu não sabia nem o meu pedaço preferido do frango caipira, quanto mais escolher um ofício que ,em tese, teria que exercer pelo resto da vida.

Sentia-me dentro da boca da jubarte. A primeira e a segunda escolha profissional passaram, quanto a terceira continuo à disposição de meu temperamento inquieto, que, por ora, descansa dentro da baleia.

Foram quarenta segundos do pescador dentro da Jubarte…Aliás, por quarenta anos os israelitas vagaram pelo deserto rumo à terra prometida buscando uma nova vida.

Conversando com minhas irmãs sobre a notícia , uma delas nos lembrou sobre outro personagem Bíblico que passou três dias e três noites dentro da barriga de um peixe até ser vomitado na praia.

Jonas fugia de seu destino e de seu propósito de existência. Precisou ser engolido e golfado na areia da praia para poder entender e aceitar o sentido de sua vida.

A outra irmã nos trouxe um personagem dos contos infantis que foi reencontrar suas origens dentro da barriga de um peixe. Também foi, nesse lugar que Pinóquio encontrou seu pai Gepeto.

A notícia bizarra foi veiculada em jornais sérios e tendo como fonte o felizardo renascido e seu colega, ambos pescadores. Gostei da essência da história, mas para mim tudo não passou foi de uma boa “conversa de pescador”.

 

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. E-mail: [email protected] gmail.com