Dia a Dia

Oração de mim mesmo

Décio Cançado

10 de Maio de 2022

“Nada nos pertence mais que os nossos sonhos, pois é a ‘vontade’ que nos faz grandes, ou pequenos. Um sonho começa a ser realidade quando homens e mulheres sonham juntos, olham para além das limitações e ousam caminhar caminhos novos, às vezes pedregosos, às vezes escorregadios, sempre desafiantes.
Com o tempo, aprendemos que nenhuma dificuldade, nenhum obstáculo é mais angustiante do que se caminhar solitário… sem mãos que se tocam, sem ombros que se apoiam, sem olhos que se olham. Aprendemos que o ‘medo’ atribui sombras grandes a pequenas coisas”.
Acredito, sim, que não precisamos realizar grandes obras. Basta que cada uma das nossas ações seja animada e sugerida por um grande amor. E entendamos que “sonho que se sonha sozinho é apenas sonho; quando sonhamos em conjunto, é a realidade que principia”.
Ou como diz o pensador: “Na vida não importa se o que fazemos é pouco ou pequeno… O que importa é que nossas palavras e ações carreguem a força de nossos sentimentos… e o ideal do nosso amor”.
E é com esse ideal, com essa energia, com essa esperança que proponho a leitura da oração que se segue, de autoria de Oswaldo Antonio Begiato. Não se trata de uma oração ligada a alguma fé ou religião em especial, mas uma oração no sentido laico, que pronuncia propósitos de mudança, de melhoria, de crescimento pessoal. Vejamos:
“Que eu me permita olhar, escutar e sonhar mais. Falar menos e chorar menos. Ver nos olhos de quem me vê a admiração que me tem e não a inveja que, prepotentemente, penso que tem.
Escutar com meus ouvidos atentos e minha boca estática as palavras que se fazem gestos, e os gestos que se fazem palavras.
Permitir sempre escutar aquilo que eu não tenho me permitido escutar. Saber realizar os sonhos que nascem em mim, e por mim, e que comigo morrem por eu não os saber sonhos. Então, que eu possa viver os sonhos possíveis e os impossíveis, aqueles que morrem e ressuscitam a cada novo fruto, a cada nova flor, a cada novo calor, a cada nova geada, a cada novo dia. Que eu possa sonhar o ar, sonhar o mar, sonhar o amar, sonhar o amalgamar?
Que eu me permita o silêncio das formas, dos movimentos, do impossível, da imensidão de toda profundeza.
Que eu possa substituir minhas palavras pelo toque, pelo sentir, pelo compreender, pelo segredo das coisas mais raras, pela oração mental, aquela que a alma cria e que só ela, alma, ouve e só ela, alma, responde.
Que eu saiba dimensionar o calor, experimentar a forma, vislumbrar as curvas, desenhar as retas e aprender o sabor da exuberância que se mostra nas pequenas manifestações da vida.
Que eu saiba reproduzir na alma a imagem que entra pelos meus olhos, fazendo-me parte suprema da natureza, criando-me e recriando-me a cada instante.
Que eu possa chorar menos de tristeza e mais de contentamentos. Que meu choro não seja em vão, que em vão não sejam minhas dúvidas.
Que eu saiba perder meus caminhos, mas saiba recuperar meus destinos com dignidade. Que eu não tenha medo de nada, principalmente de mim mesmo. Que eu não tenha medo de meus medos!
Que eu adormeça, toda vez que for derramar lágrimas inúteis, e desperte com o coração cheio de esperanças.
Que eu faça de mim uma pessoa serena dentro de minha própria turbulência; sábia, dentro de meus limites pequenos e inexatos; humilde, diante de minhas grandezas tolas e ingênuas. Que eu me mostre o quanto são pequenas minhas grandezas e o quanto é valiosa minha pequenez.
Que eu me permita ser pai, mãe e, se preciso, ser órfão. Permita-me ensinar o pouco que sei e aprender o muito que não sei. Traduzir o que os mestres ensinaram e compreender a alegria com que os simples traduzem suas experiências.
Respeitar incondicionalmente o ser; o ser que, por si só, por mais nada que possa ter além de sua essência. Que eu possa auxiliar a solidão de quem chegou, render-me ao motivo de quem partiu e aceitar a saudade de quem ficou.
Que eu possa amar e ser amado. Amar, mesmo sem ser amado; fazer gentilezas quando recebo carinhos, e fazer carinhos, mesmo quando não recebo gentilezas.
E, em tempo algum, que eu jamais fique só, mesmo quando eu meu queira só”.