Dia a Dia

O Tempo Passa, Costumes Mudam

POR SEBASTIÃO WENCESLAU BORGES

17 de março de 2021

Em um determinado tempo, o vendedor viajante foi uma classe que marcou época e fez história percorrendo o interior do país. Os vendedores chegavam à cidade de ônibus ou trem de ferro, visitando os estabelecimentos de comércio e indústria, levando em sua grande maleta de mãos pequenas amostras e vendendo seus produtos.

Sem essa era digital, e toda essa tecnologia de hoje, eram eles que supriam todas as necessidades sem ser preciso o proprietário sair para os grandes centros para fazer suas compras. E assim eles percorriam, indo de loja em loja, inclusive nas Sapatarias principais de Passos, como era o nosso caso. Esses vendedores eram destaques principalmente pelas cidades do interior devido à necessidade do comerciante em busca de mercadoria.

Com sua pasta de trabalho, faziam seu itinerário a pé pela cidade, ajudavam o cliente a resolver os pedidos facilitando as compras, numa troca de ideias. Quando um deles chegava à Sapataria, sentava no “tamborete dos sapos” (banco dos contadores de prosa), ajeitava no balcão a grande pasta, tirava a ficha do cliente e com os detalhes das mercadorias os pedidos eram feitos: caixinhas de pregos e tachas, latas de litro de cola, saltos de vários tipos e tamanhos, os mais usados eram os saltos Goodyear, ferramentas para o trabalho que a sapateirada mais novos nem conheceram: a pedra de afiar Italiana, faca marca Peixe que trazia a figura de dois peixes, vidros de tinta Tic Tac, as peças de couro alemão, as verdadeiras pelicas de couro de cabrito, e pelo percurso da freguesia às vezes o pedido demorava até meses para chegar. As encomendas eram despachadas e vinham pelo trem, e as entregas aqui em nossa cidade de Passos, eram feitas em um caminhão da Companhia Mogiana pelo motorista Jair Curi.

As mercadorias vinham em caixotes de madeira grossa que depois serviam de banco. Quando o pedido era grande e o valor elevado, vinha a conversa do vendedor ao comprador: “Se não puder pagar a duplicata, guarde ela que quando eu voltar remarcaremos a data ou fazemos uma nova”. Era a confiança que o vendedor tinha em seus fregueses!

De vários desses vendedores viajantes sempre me lembro de dois: eram bem humorados, tinham carinho no tratamento não só com os donos dos estabelecimentos como também com os empregados, e ao sair despediam de um por um citando o nome. Sô Lopes, baixo, gordo, sempre bem trajado com roupas de linho e chapéu panamá claro de aba estreita.

Era representante das Lojas Passalacqua de Ribeirão Preto. Certa vez, eu e o Waldemar meu cunhado fomos até Ribeirão Preto assistir um jogo do time do Santos de Pelé &Cia contra o Botafogo do zagueiro Veríssimo que nos anos 68 e 69 jogou num timaço de profissional do Esportivo que tinha o goleiro Carlos Pedra, e Zezé, o melhor centroavante que um time profissional de Passos já teve. Pois bem, estávamos no bar Pinguim antes do jogo, tomando um chopp, e lá encontramos Sô Lopes.

Fez questão de nos levar para sua casa ali perto e almoçar com sua família. O outro viajante era Sô Willians. Era do Rio de Janeiro, torcedor do Fluminense, já beirando seus 70 anos, calmo, alto, de uma boa memória. A primeira vez que esteve na Sapataria foi ao banheiro e acertou a testa no portal, que era baixo. A partir daí todas as vezes que chegava à Sapataria e ia ao banheiro fazia comentário sobre essa testada!

De dentro de sua maleta pegava uma caneca de alumínio, tomava água de uma velha talha com filtro de parede que deixamos criar lodo por fora e dizia: “Até no Rio de Janeiro eu comento com amigos e familiares sobre essa água boa e essa talha!

Desde a primeira vez que ficou sabendo eu ser um “Flamenguista Sadio”, nunca chegou à Sapataria sem trazer do Rio uma lembrança do Flamengo.Tenho guardado dele alguns chaveiros, uma latinha de pastilhas para garganta com o escudo do Mais Querido do Mundo, e um pôster do Flamengo Campeão do quarto Centenário em 65 justamente em cima do seu time!

E assim o tempo passa, os costumes mudam, mas as lembranças desses viajantes de lugares e histórias diferentes sempre ficarão em minha mente, e certamente também na mente de muitos que viveram essa época! É o tempo passando e a gente “Memoriando” !