Dia a Dia

O tempo e as águas de março

POR SEBASTIÃO WENCESLAU BORGES

10 de março de 2021

Chuva caindo no domingo a noite e o barulhinho da água da chuva me inspirou a escrever este texto de hoje: Nasci em um dia do mês de março, um ano após o fim da Segunda Guerra Mundial. Nos cinemas eram exibidos filmes que até hoje são lembrados como: “O fio da Navalha, Casablanca, Alma em Suplício, Á Meia Luz, com Ingrid Bergman, e o contemplado com a estatueta do Oscar de melhor do ano, Farrapo Humano”.

No Brasil, destaque na parte literária para Jorge Amado com seu sétimo livro “Seara Vermelha“, e “Lustre“, segundo romance de Clarice Lispector. Nos poucos rádios existentes, tocavam os sucessos como “Tai” de Carmem Miranda, e na voz de Heron Domingues o Repórter Esso dava a notícia: “Um incêndio destrói a Estação da Luz em São Paulo”. Cai a ditadura de Getulio Vargas, e assume a Presidência Eurico Gaspar Dutra.

É promulgada a nova Constituição Brasileira, e o Presidente Dutra decreta o fechamento dos cassinos do Brasil e demais jogos de sorte, e principalmente o jogo do bicho. É recolhido o dinheiro Réis e substituído por Cruzeiros e Centavos, com o salário mínimo valendo 270,00 Cruzeiros. A população de Passos, entre Zona Rural e Urbana é de 32.100 pessoas. A cidade tem 90 veículos a motor e165 carroças (mas em Passos também se fazia o transporte pelas linhas: Aéreas Nacional e Real).

Passagens aéreas de Passos para São Paulo 300,00 Cruzeiros, para Belo Horizonte 304,00, meia passagem 162,00 e criança de colo 47,00. Preço de uma consulta médica em consultório 30,00, em domicilio 40,00. (Para atendimento na Zona Rural, cobrava – se por léguas sem incluir condução do médico). O Grupo Escolar Wenceslau Braz tem 900 alunos matriculados. O jornal “O Sudoeste” circulava sua primeira edição em 19 de maio, e em sua edição de 7 de Julho noticiava a instalação do segundo Grupo Escolar na cidade, “Abraão Lincoln”.

Nesse ano falece o Cel. José Stockler de Lima, o Juca Stockler, que foi Agente Executivo em nossa cidade de Passos antecedendo o período de 18 anos de mandato de Lourenço de Andrade, e um dos fundadores da Sociedade São Vicente de Paulo de Passos. Concentração Mariana em Passos, intensa vibração religiosa com 2000 visitantes, todos sendo hospedados nas casas das famílias Passenses. Inauguração do Estádio do Clube Esportivo Passense com a disputa da Taça da Amizade em que os nossos Periquitos, comandados por Francisco Sales da Fonseca, perderam para o Grêmio Carmelitano por 1×0.

Na política, cai, depois de 18 anos, Dr. Lourenço Ferreira de Andrade. Nomeado interventor, Dr. Geraldo Starling Soares chega a Passos, e entre tantos decretos organiza a eleição mais disputada da história de Passos. Geraldo da Silva Maia PSD, (Pato) Domiciano José Lemos UDN (Peru). Vitória apertada de Geraldo Maia por 18 (dezoito) votos, em quase dez mil eleitores, e fato curioso era a votação para Vice-Prefeito, que ocorria em separado. O candidato de Geraldo, Dr. Clóvis Soares Maia, perdeu por 13 (treze) votos para o candidato de Domiciano, Ananias Lemos de Melo, que elegeu- se Vice Prefeito.

Eleito Presidente da Câmara, Dr. Antonio Caetano de Andrade, vice Dr. Manoel Patti, secretário Nadra Esper kallas, e mais os seguintes Vereadores: Dr. Antonio Mendes Peixoto, Pedro da Silva Lemos, Gasparino Ferreira de Andrade, Alfredo Cardoso, Quinca Macedo, Rafael de Simone, Baltazar José Lemos, Clóvis Camargo, Dr. Rômulo Leitão, o mais votado, e um vereador do distrito do Glória. Nessas eleições foram eleitos Deputados Federais pelo estado de Minas, entre outros, Juscelino Kubitscheck, Tancredo Neves, Gustavo Capanema, Benedito Valadares, Dr. Wellington Brandão, e para Estadual Dr. Lourenço de Andrade.

Era época das vendas e empórios de secos e molhados, comprava-se em caderneta, e muitas eram as contas pagas anualmente. Não se conhecia a palavra inflação. E assim, tendo a chuva como inspiração, fui registrando através da memória esses fatos e acontecimentos na data do ano 1946, ano em que nasci, uma época em que a cidade de Passos tinha pouco mais de 32 mil habitantes. Sem lazer, as pessoas arrumavam tempo para visitar vizinhos, amigos e parentes. Por qualquer dificuldade faziam suas promessas, e nas águas de março, na “enchente das goiabas”, famílias faziam goiabadas para comer o ano todo, guardadas em caixa de madeira com tampa de puxar!