Dia a Dia

O tatu que comia galinhas

8 de Maio de 2020

Sob o clarão das lamparinas e lanternas o Joãozinho estava pelado, segurando uma acha de lenha sem saber onde enfiar a cara. As comadres esfregavam os olhos arregalados. Dona Gertrude virou as costas pra não ver, a Rosa se achegou pra ter certeza que não estava de sonho, colocou a mão na frente das vistas afastando os dedos pra olhar no meio deles. O que Joãozinho pôde fazer foi puxar o tatu canastra que jazia inerte no chão e cobrir as vergonhas com ele.

Da janela a esposa gritava agora com o desespero na ponta da língua pedindo enciumada pro Joãozinho sair do sereno e do olho comprido das comadres.

Tudo teve início quando dona Geralda se queixou do sumiço das galinhas, patas, pintos e ovos.

— Ô Joãzim, ocê tem qui fazê arguma coisa, nóis vai ficá sem galinha ninhuma.

— Podexá, muié. Ieu, onte, falei cum Zifirino e pidi pr’ele fazê uma arapuca mode pegá esse bicho danado.

Chegou da roça já era noitinha, lavou os pés na bacia (banho era só aos domingos) e jantou seu tutu de feijão. A mulher foi se deitar mais cedo, pois tinha torrado café e não podia tomar friagem.
Carrapatinho é um parasita que vive nos pastos, no tempo das secas, agarrado aos ramos e folhas, é molesto ao homem pela comichão dolorosa que causa e naquele dia a roupa do Joãozinho estava infestada deles, o que o deixava irritado.

O recurso foi estender a roupa em frente ao fogão a lenha, pois a claridade e calor fazem com que bichos saltem para o fogo. Estando sozinho tirou a camisa, as calças e as ceroulas, ficando ali na cozinha, nu em pelo, enquanto se livrava dos carrapatos. Foi quando ouviu um barulho vindo do galinheiro.

Do quarto, a mulher gritou:

— Joãozimmmmm! Ô Joãzim! Vai lá ligero, sô! O bicho tá pegano as galinha! Corre home de Deus, sinão ele foge!

Atordoado pelos gritos da mulher, pelo alvoroço da galinhada ele só passou a mão num tição e saiu correndo no escuro até o lugar de onde vinha o furdunço: grunhido, cacarejo, latidos e também o gritos do Joãozinho que dizia:

—Toma uma paulada, tatu disgramado! Cumedô de galinha dus ôtro, isso é procê aprendê…

Dona Geralda, não podendo tomar sereno, saiu à janela e viu a vizinhança chegando, pois mesmo morando a certa distância do sítio, eles ouviram a confusão.

O compadre Antero, a comadre Cilina, o Brechó, o Zeca, a comadre Rosa, dona Gertrude já idosa, mas muito curiosa, mesmo ruim das pernas, veio manquitolando junto com os filhos. Aos poucos, o barulho se abrandou e a porta do galinheiro se abriu aparecendo o nosso herói vitorioso daquela peleja e dando de cara com aquela pequena multidão ali na sua porta.

— O que ocêis tão fazeno aqui essas hora, uai?

Dona Rosa se antecipou:

— Uai, cumpá João, nóis tudo incomodô cum esse baruião e viemo vê se ocê tava careceno de um adjutório.

Compadre Zeca falou:

— Cê tá ficano fraco da ideia, cumpadi Joãzim? Caçá tatu assim pelado nessa friage, óia que ocê constipa home!

— Num fala isso du cumpadi, sô! — interveio a comadre Cilina.

Compadre Antero entrou no assunto:

— Cumpade, nóis inté pensô qui pudia sê ladrão.

Joãozinho ali sentindo um ventinho frio nas costas precisava tomar uma atitude:

—Tô munto agradicido, mas ocêis pode i simbora cum Deus. O trem aqui tá risurvido minha gente, era esse tatu que tava cumeno as galinha e os ovo daqui de casa.

Cumpade Onofre quis saber:

— O quê o cumpadi vai fazê cum esse tatu?

E o Joãozinho:

— Ah, ieu vô interrá ali na horta, amanhã cedim.

A comadre Rosa deu sua opinião:

— Nóis pudia apruveitá a carne pá cumê.

Compadre Antero:

— Óia aqui, cumpá João, ieu num quero te acismá não, mais acho mió nóis dá um fim nesse bicho hoje memo! Si a puliça florestar fica sabeno qui ocê matô um tatu canastra, vai vim em riba docê, mode quê ieu ouvi dizê lá na cidade, qui o tatu canastra tá em “ixistição”.

Uma ideia rondava por ali. Se olharam até caírem na gargalhada, na verdade rolaram de tanto rir. Dona Gertrudes riu tanto que molhou toda a anágua. Joãzinho também riu com a cara típica de criança quando faz traquinagem, entregou o tatu para as comadres; mandou o Compadre Zeca buscar a pinga. Onofre pegou lenha e acendeu o forno…

A lua apareceu tarde naquela noite. Alumiando aquele sítio, parecia que abençoava aquelas pessoas do sertão. Eram simples e felizes.

MARIA MINEIRA é escritora. Esta e outras 52 histórias fazem parte do livro: “Ao Pé da Serra- Contos e Causos da Canastra”.