Dia a Dia

O retrato de Mariana

POR CECÍLIA PEREIRA OLIVEIRA

16 de julho de 2021

Era década de 60, e na época eu tinha apenas oito anos de idade. Minha família possuía poucos recursos, e sempre éramos convidados por minha madrinha para passar um dia em sua fazenda. Sempre que íamos até lá, Dindinha Luzia, como eu a chamava, nos preparava uma boa ceia.

Meus pais sempre foram bravos e, quando precisasse, estavam ali para me corrigir, na maioria das vezes com varinhas de marmelo. Minha mãezinha já havia me ensinado que deveria me comportar e não fazer perguntas, pois além de não estar em minha casa, dindinha havia perdido uma de suas filhas há pouco tempo. A moça se chamava Mariana, eu não tinha lembranças dela, mas mamãe sempre me dizia que ela era linda e tinha os cabelos negros como a noite.

Fomos muito bem recebidos e já estava à mesa, a nossa espera, um delicioso café da manhã. Eu, menina pobre, ficava encantada com tantas comidas gostosas! Sentamos, comemos e conversamos. Apesar dos avisos da minha mãe, criança tem boca grande e sempre pergunta coisas desnecessárias. Então, logo após o café, vi que um dos quadros estava coberto e perguntei à minha madrinha quem estava debaixo daquele véu. Dindinha mudou o semblante e, nesse momento, meu pai me beliscou o braço e disse para eu ficar quieta. Quase chorando, eu saí correndo da casa e fui parar nos fundos do pomar.

Meu padrinho era muito bem de vida, e, com isso, fazia questão de mordomias. Mesmo na fazenda, vivia no luxo. O lado externo de sua casa era gramado, cheio de flores e árvores, bem no final havia um poço, de onde eles retiravam a água. Muito curiosa, fui espiar e perdi a noção do tempo. Cada vez mais o céu ficava escuro, e quando decidi voltar encontrei uma moça muito bela perto de uma jabuticabeira. Ela me chamou e começou a fazer trancinhas em meu cabelo. Como não me assustei, eu não sei, mas naquela hora só queria sentir aquela maravilhosa sensação de alguém cuidando e zelando de mim.

Depois de algum tempo, perguntei seu nome e ela contou que se chamava Mariana. Sem mais nem menos eu lhe perguntei: “Mas, como assim, Mariana? Você é a filha da dindinha Luzia?”. E ela afirmou que sim. Naquele momento, meu corpo gelou, meus braços ficaram mais brancos do que já eram e tive uma leve tontura. Ela me disse para ficar calma, pois nada de mal me aconteceria. Ela queria apenas minha ajuda. Eu, ainda com um pouco de medo, me sentei nas raízes de uma árvore e comecei a escutar o que ela tinha a me dizer.

Menina, eu morri faz alguns meses… Sei que minha mãe está muito abalada. Às vezes, sinto pena e tenho vontade de abraçá-la como nos velhos tempos. Não posso, pois me lembro de quando fui lhe apresentar o amor de minha vida ela o esnobou, justamente por ele ser um vaqueiro. Infelizmente proibiu-me de me casar com ele. Meu amor por Marcelino era imenso. A simples proibição de mamãe não me distanciaria dele. Planejamos então, fugir na noite do meu aniversário de 18 anos.

Nunca soube como o boato chegou aos ouvidos de minha mãe. Dona Luzia, sempre cheia de artimanhas começou seu plano para nos separar. Começou a tratar Marcelino de outro jeito. Chegou a me dizer que o aceitaria na família. Eu, ingênua e cheia de esperanças, acreditei!”

Na noite da festa, ela colocou veneno no copo de vinho do meu amor. No meio da comemoração dos meus 18 anos, pedi que aquele copo fosse o meu e, trocando as taças, bebi como se aquele, fosse o último copo de água em um deserto. Os efeitos logo surgiram. Uma tontura, juntamente com terríveis convulsões tomaram conta de mim. Em questão de segundos caí sem vida nos braços de Marcelino. Mamãe não chegou a tempo de impedir a tragédia arquitetada por ela. As últimas palavras desesperadas que dela ouvi antes de morrer, foram: “Perdão, meu amorzinho!”.

Naquele instante, saí correndo! Meus pais estavam preocupados, pois eu havia sumido durante toda a manhã. Não sabia como olhar para tamanha crueldade de dindinha, uma pessoa que eu respeitava tanto… Comecei a chorar e chamei meus pais para irmos embora. Eu ainda apanhei de cinto, no caminho de volta. Meu pai disse que não voltaríamos lá tão cedo, pois eu o fizera passar vergonha! Estranhamente, desde então, todas as vezes que me deito para dormir, ouço a voz de Mariana dizendo: “Preciso muito de você!

CECÍLIA PEREIRA OLIVEIRA faz parte de um grupo de alunos do 3º ano do Ensino Fundamental à 3ª série do Ensino Médio, que no ano de 2018, integrando um grupo organizado pela escritora Maria Mineira, com o apoio da Cooperativa Educacional de São Roque de Minas lançou em 2019: “ Letras da Canastra- Cooperativa Educacional Escrevendo História”. Para adquirir um exemplar entre em contato pelo e-mail: [email protected].com.br