Dia a Dia

O Paciente

Dia a Dia / Patricia Lopes Pereira Santos

2 de dezembro de 2021

Adoro assistir a pegadinhas no celular, divirto-me vendo os comportamentos díspares das pessoas alvos das encenações.
Enquanto algumas reagem imediatamente à farsa, às vezes até com safanões nos atores golpistas, outras nem percebem que foram ludibriadas, ou se percebem ficam indiferentes à situação e ainda conseguem ser educadas com os protagonistas.
Só que tudo tem limite na vida. Por mais tranquila que seja a pessoa, eu fico imaginando quantos pés de alface não deve ter comido o rapaz que namorou por quinze anos com uma moça sem conhecê-la pessoalmente. Ele acreditava que a sua namorada virtual seria a modelo brasileira Alessandra Ambrósio, era uma pegadinha. A namorada Fake morava na Itália e este golpe chama-se catfishing.
Para quem está por fora do assunto, trata-se de notícia veiculada pela Folha de São Paulo no último dia vinte e quatro, quando um italiano contou num programa televisivo sobre o rombo emocional e financeiro que sofreu por acreditar numa farsa romântica por longos quinze anos.
Se alguém me contasse que essa história tivesse acontecido no século passado, não haveria nem motivo para eu escrever esse texto.
Inclusive esse é o roteiro de um dos filmes mais legais que já assisti.“Nunca te Vi Sempre te Amei”, que fala de uma amizade especial construída apenas por meio da troca de cartas. Sem cafezinhos e sem presença física, apenas o afeto entre amigos celebrado pelo toque das palavras. A diferença é que a história se passa em 1940.
Outra situação semelhante viveu C.S. Lewis, o meu escritor cristão preferido, este professor inglês casou-se com uma escritora americana após um ciclo extenso de correspondência. Sua história é retratada no filme “Terra das Sombras”
Enfim, já foi o tempo em que era crível esse tipo de relacionamento, depois que o mundo virou uma ervilha global, acho, no mínimo, muito diferente um romance nesse formato se prolongar.
Foram quinze anos, o casal fez bodas de Cristal!
Acredito que esse namoro virtual se alongou muito mais pelas questões emocionais do rapaz que comeu alface, do que, propriamente, pela perícia da falsa Alessandra Ambrósio em ludibriá-lo.
Algum dia, todos nós, já nos autoenganamos. No campo afetivo, quantas vezes, nosso pisca-alerta amoroso nos avisava do perigo, mas, ao contrário, do que diz uma música sertaneja das antigas, a gente preferia “ sonhar na mentira do que amar na verdade”. Existe prazer maior do que acreditar que somos e seremos desejados para sempre?
E mesmo sabendo que o “pra sempre, sempre acaba”, continuamos buscando a completude e a perfeição nas nossas relações amorosas, afinal, algumas ilusões são necessárias para a vida. E assim, algumas pessoas, se agarram em galhos muito diferentes de suas raízes, esquecendo-se de que “mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira”.
Bem que o rapaz comedor de alfaces poderia ter ouvido os nossos músicos dos anos 80.
Ele quase virou o Tarzan, foram quinze anos se agarrando nos galhos da ilusão, até que o peso da realidade espatifou o Cristal.
Ele contou para a apresentadora do programa televisivo que foi como se saísse de um estado de coma. Acredito que, assim como todo paciente que sai desse estado letárgico, o moço vai precisar de muita ginástica para se recuperar, fisioterapia para a alma e para o coração.

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. E-mail: [email protected] gmail.com