Dia a Dia

O novo antigamente

POR MÁRCIO NOGUEIRA

25 de março de 2021

Os nomes próprios também são modismo. A cada acontecimento surgem nomes que se destacam de maneira surpreendente. Copa do mundo, filmes, novelas são sempre inspiradores de nomes bonitos e apreciáveis.  Dias desses vi o Loquidau, no maior entusiasmo falando bem do Mandeta, sobre sua intenção de não deixar os seus jogadores ficarem sem concentração. Concentrar e se isolar é tudo de bom para o atleta. O Bolson foi contrário. Acha que isolar atleta é idiotice. Todos têm que viver a vida. O Máscara de Souza interveio na conversa dizendo na maior cara de pau:

— O que acho de melhor é estar próximo das moças bonitas. Tem gente que não gosta de mim, mas eu gosto de estar junto a todos. Minha presença faz muito bem.

— Presunçoso… — retrucou o Bolson.

— Olá pessoal. Vocês viram o Mandeta? — perguntou a Quarentena. — Dizem que ele foi dispensado pelo presidente do clube e substituído pelo Taíque? É verdade?

— Isso mesmo e já cheguei para substituir o Taíque. — disse o Pazelo, novo técnico, entrando na conversa. — De agora em diante o que vai valer para o nosso clube será a movimentação. Vai vigorar a logística da liberdade.

Aproxima-se da rodinha um descendente de chinês.

— E aí Alcongel, você é chinês mesmo? — perguntou a Uteí, menina bonita e educada ao vê-lo se aproximar.

— Não! Sou brasileiro. Chineses são os meus pais que vieram para o Brasil no fim da década passada.

— Como é o nome de seus pais? — perguntou Uteí.

— Meu pai é o Covid Jin Chang e minha mãe chama-se Corona Li Chun. Aqui no Brasil eles a chamam de Dona Vírus, não sei por quê.

— Eu nunca vi os seus pais. Onde eles andam? — interveio novamente a Uteí.

— Desde que chegaram aqui no Brasil, no fim do ano de 2019, não pararam de trabalhar. Durante um certo período viajaram pelo país todo distribuindo os seus produtos. Felizmente deu muito certo. O Brasil é o quarto país do mundo que mais consumiu o que vendiam. Eles conhecem muito bem o Loquidau e a Quarentena. Hoje eles vivem num sítio praticamente isolados do mundo. Quase nunca vêm à cidade. — concluiu o Alcongel.

Fiquei observando aquele grupo de adolescentes. Era quase igual à minha geração. Conversa animada. Assuntos variados. Falando alto, risadas em profusão. Alegria geral. Observei uma diferença, uma grande diferença. Não havia proximidade física entre eles. No meu tempo, num banco de jardim como este, sentávamos uns dez jovens.

No assento propriamente dito, ficavam quatro. No encosto mais uns três ou quatro. No chão, bem próximo aos demais outro tanto. Bem, grupinho de quinze em volta de um banco de jardim era fácil de encontrar. No momento de voltarmos para casa, os meninos eventualmente iam com o braço no ombro do companheiro, as meninas saiam de mãos dadas, o namorado tocava levemente o braço da namorada. Havia ainda o hábito de dar beijinhos no momento do encontro e da despedida. Hoje não existe isso mais.

A rodinha começou a desmanchar. A Uteí perguntou à Quarentena pela Pan e pela Demia, dizendo que havia tempos que não as via. Quarentena respondeu que elas andavam muito ocupadas com um novo tipo atividade. Tinham que atender muitas pessoas por dia e chegavam em casa exaustas. — Coitadas! Estão trabalhando demais, sem tempo para se divertir.

O Loquidau disse que iria para casa e que não sairia mais durante o resto da semana. Taíque disse que ia continuar sua rotina de vida. Quarentena insistiu com todos que o bom mesmo é ficar em casa com a família. João Doro, um jovem politicamente correto, disse que iria fazer algumas visitas a amigos que não via há tempos.

Cada um foi para o seu lado. Despediram-se à distância. Apenas os namorados estavam próximos um do outro. Assisti a tudo aquilo e, intimamente, fiz um comentário: como é diferente a juventude de hoje! No meu tempo cada um apertaria a mão do amigo. Dariam tapinhas nas costas. Beijinhos. Sairiam juntos. Alguns convidariam os amigos para lancharem em suas casas. Hoje nem a Quarentena, com toda sua beleza, recebe beijinhos dos rapazes.

O se despedirem o Loquidau perguntou à Uteí qual era o nome dos pais de João Doro. Uteí respondeu que era Dr. Alberto e Dona Conceição. Loquidau comentou: nomes mais esquisitos esses! Antigamente o povo não sabia nem escolher os nomes dos filhos. É mesmo, concordou a Uteí. Cada um foi para o seu lado.

MÁRCIO NOGUEIRA, sociólogo. O conto acima participou do concurso literário no Minas Tenis Clube de Belo Horizonte e foi classificado em segundo lugar.