Dia a Dia

O mistério da sombra

POR MEL CRISTINA BONFIM GUBEL

12 de março de 2021

Era sexta-feira e minha mãe costuma caprichar na comida. Eu saí da escola e fui na frente sem nem esperar meus amigos. Quando ouvi alguém me chamando:

— Lyla (se fala laila), me espere! Era John, meu melhor amigo.

Ele estava acompanhado da Regina e do Michael (se fala maikol).

— O que foi? Fala logo, estou com fome!

— Hoje, à noite, nós vamos sair, você vem? — disse John.

— Acho que sim, se minha mãe deixar…

Então, nós quatro continuamos o caminho. Regina e Michael moravam em ruas diferentes da minha. Eles se despediram e viraram a esquina. Eu e John continuamos, pois somos vizinhos. Cheguei em casa e almocei. Tirei o uniforme, coloquei uma roupa confortável e fui à casa de John, pois sempre vou até lá para ver filmes e jogar videogames.

John e eu adoramos filmes, principalmente de ficção, pois eles conseguem nos tirar da nossa realidade pacata e nos levar para outra dimensão.

Nós nos sentamos na cama, ligamos o notebook e colocamos um filme de terror. John mal trocou uma palavra comigo. Estava estranho, sempre quando acontece alguma coisa ele me conta, mas dessa vez estava muito calado, me virei para ele e disse:

— O que foi que aconteceu? Você está estranho…

Olhei para ele, tentando descobrir o que se passava em sua cabeça. 193

— Não foi nada, eu estou bem… — disse ele, desviando o olhar.

— Óbvio que algo aconteceu! Te conheço há sete anos, acha que me engana? — perguntei, forçando uma resposta.

Ele me encarou por alguns segundos e depois olhou o chão:

— Eu tive um sonho estranho…

— Que tipo de sonho? — eu disse, já curiosa.

— Nós… Nós erámos na…namorados!

— Ele ficou vermelho na hora, e eu também. Percebi que, John com esse tipo de expressão era fofo.

— Mas você já pensou em nós dessa maneira?  — indaguei. Ele me olhou de modo estranho e olhando no fundo dos meus olhos, respirou profundamente: — Sabe, há alguns meses eu percebi que… Ele olhou o chão, meio preocupado.

— Queeee? — insisti.

— Eu te amo, Lyla!

Ele colocou os olhos em mim novamente, eu estava surpresa. Não sabia o que falar, pois nunca havia reparado que os olhos dele eram verde-claros e muito calmos… Meu Deus, Lyla — refleti — o que você tá pensando em uma hora dessas? — Mas fiquei feliz ao ouvir ele dizendo isso! — Como assim, Lyla? Como pode ficar feliz quando seu amigo está prestes a levar um fora? Droga, vou naquele clássico “não é você, sou eu…!”. Tá! Calma: um, dois três e…

— Você me deixa pensar um pouco antes de te responder, por favor? — o que você acabou de falar, Lyla? — pensei comigo mesma. Onde você está com a cabeça? Agora, ele vai ficar cheio de esperanças! — Sim, leve o tempo que precisar — ele disse, e voltou o filme do começo, pois havíamos perdido.

Por incrível que pareça, o clima não ficou estranho entre nós. Quando começou a anoitecer, fui até minha casa, tomei um banho, coloquei uma roupa bonita e esperei por John em frente à casa dele.

Nós fomos até a lanchonete em que havíamos combinado. Chegando lá, vi Regina e Michael já sentados, conversando. Sentamos juntos a eles e comemos. Depois ficamos andando pela cidade conversando, contando piadas e rindo alto até que Michael deu a ideia de irmos até o cemitério. Vi John se encolher — ele até vê filmes de assombrações e coisas do tipo, mas quando o negócio é para valer, ele fica um medroso. É claro, não podia perder a oportunidade:

— É mais fácil o John bater na própria mãe que entrar no cemitério! — eu disse com ar de deboche. Regina e Michael deram risada, John se irritou.

— Ah, é?! É mais fácil a Lyla abandonar os próprios amigos a negar um pote de açaí! — Regina riu e, é claro, Michael também!

Começamos a dar patadas um no outro, até que John disse:

— Eu vou entrar nesse cemitério só para te provar que não tenho problema com isso!

Todos nós olhamos assustados para ele, que virou as costas e saiu em passos rápidos em direção ao cemitério.

— Ei, nós estávamos brincando, não precisa mesmo ir! — disse Regina.

— Isso mesmo! Ainda mais a essa hora da noite! — completou Michael.

Continua…

MEL CRISTINA BONFIM GUBEL N faz parte de um grupo de alunos do 3º ano do Ensino Fundamental à 3ª série do Ensino Médio, que no ano de 2018, integrando um grupo organizado pela escritora Maria Mineira, com o apoio da Cooperativa Educacional de São Roque de Minas lançou em 2019: “ Letras da Canastra- Cooperativa Educacional Escrevendo História”. Para adquirir um exemplar entre em contato pelo e-mail: [email protected]