Dia a Dia

O mal do século XXI

DÉCIO MARTINS CANÇADO

22 de junho de 2021

O mundo está mudando muito, e muito rápido. O famigerado “tempo” escoa por nossas vidas, escapa ao nosso controle, e sempre afirmamos que o temos cada vez menos. As pessoas já não ficam na “varanda” das casas no final da tarde, trocando ideias, falando de negócios, conversando a respeito da família, do comportamento dos filhos, discutindo os problemas comuns a todos e, com isso, organizando sua vida mental, psicológica, emocional e, por que não, a sua vida comunitária. Também já não fazem mais as tradicionais “visitas”, quando entravam em contato com famílias amigas ou com parentes, e da mesma forma, trocavam experiências, conversavam sobre muita coisa, e iam dormir mais tranquilas, pois haviam convivido com outras pessoas, ‘descarregado’ muitas tensões, colocado os assuntos em dia.

É lógico que, por muitos fatores da vida moderna, essas coisas já não acontecem mais, a não ser em pequenas comunidades ou na periferia das cidades maiores, nas quais pessoas mais simples ainda conseguem manter um relacionamento próximo com vizinhos ou parentes.

Estamos muito preocupados, com medo de tudo e de todos, erguendo muros altos, intransponíveis, em suas residências e com seus relacionamentos, colocando grades e cercas elétricas, trancando suas casas, suas mentes e suas emoções. Os aparelhos eletrônicos substituíram as pessoas. As crianças e os jovens passaram a ter um contato assíduo com a Internet, e se uniram aos adultos para ficarem cada vez mais separados, ao não se separarem do computador e do celular.

A ‘era do conhecimento’ exige dos profissionais a permanente leitura, além da constante atualização, através de cursos e mais cursos. As mulheres (e mais recentemente também os homens) precisam estar sempre com a aparência impecável, e para tanto, têm que frequentar academias e salões de ‘beleza’, (embora algumas não consigam tal façanha – a de ficarem belas), mesmo com muito empenho. Isso demanda tempo, dinheiro, esforço, dedicação, mais trabalho para ganhar mais dinheiro, numa roda viva interminável e, é lógico, estressante.

E os filhos, quando é que vão entrar nessa história de modernidade? Eis aqui o problema mais visível e preocupante da vida moderna. O da educação que vem “do berço”, que precisa de tempo, presença, diálogo, amor e carinho, de um ‘cafuné’, de rir e chorar juntos, de conversa, paciência, daquele ombro amigo, de aceitação e, principalmente, de limites.

O ‘mal do século’, hoje, é o tão famoso estresse. Com todo mundo que eu converso é a mesma coisa. “Estou estressado”. Da dona de casa (espécime em extinção) até o mais alto executivo, que passou a ser também “executiva”, todos se queixam do mesmo mal e apresentam os mesmos sintomas. Em qualquer lugar, seja no clube, no trabalho, numa viagem ou em uma festa, vira e mexe ou mexe e vira, aparece na boca das pessoas, como se num passe de mágica, a palavra mais pronunciada nos últimos tempos: estresse.

São pais e professores que estão ‘estressados’ e não conseguem ter a devida paciência e equilíbrio para conversar, orientar, compreender, aceitar e impor limites, como já dissemos. Os pais se fecham em si mesmos, e também nos seus quartos, deixando que os filhos façam o que quiserem, da forma como quiserem. Os professores (que na maioria também são pais) acabam permitindo que os alunos sejam indisciplinados, que ‘colem’ e desrespeitem sua presença, porque já não conseguem impor sua autoridade.

É importante que cada um de nós reveja suas prioridades e reorganize sua vida. Só assim o nível de estresse em cada um poderá diminuir e conseguiremos reaver o controle de nossas emoções e de nossa vida. Amanhã poderá ser tarde demais.

É urgente resgatar determinados valores, mudar nossas prioridades. É imprescindível sermos menos egoístas, se realmente pretendemos que este ‘mundo’, que é o lugar onde vivemos e convivemos, seja melhor e que nossos filhos e alunos sejam diferentes do que são. Eles estão pedindo ‘socorro’, estão precisando de nós, pais e professores, para acolhê-los, orientá-los e encaminhá-los para um futuro promissor, pleno de harmonia e paz.