Dia a Dia

O império da vaidade

POR DÉCIO MARTINS CANÇADO

9 de fevereiro de 2021

Quem normalmente lida com crianças e adolescentes, tem que lidar constantemente com os problemas que existem por trás dos atuais ‘padrões’ de beleza, que os afetam diretamente: a indústria e o comércio da cultura do narcisismo, da beleza externa a qualquer custo, pois estão com o físico e a personalidade em formação.

Pior ainda, esse fenômeno está atingindo, cada vez mais, os adultos também. Sob o pretexto de promover a saúde, incentiva-se o consumo de produtos de rejuvenescimento e emagrecimento. Por todos os lados, encontramos anúncios de ‘fórmulas mágicas’, de aparelhos ideais para se conseguir um corpo perfeito, como o das modelos da propaganda; mas o segredo da indústria da ‘boa forma’ é que as pessoas nunca conseguem o resultado esperado.

Aos ávidos consumidores do sucesso, vende-se um fracasso eterno, pois o atual modelo pré-fabricado de beleza investe na competição e no destaque individual. Por mais satisfatórios que sejam os resultados de um trabalho de “malhação”, de algum regime alimentar ou de suplementos, sempre haverá um vizinho ostentando resultados “melhores”, a sugerir que ainda se está muito aquém do desejado. Percebe-se que não existe mais prazer no bem-estar interior, tanto pessoal quanto coletivo. A ordem, agora, é tentar se distinguir da massa pela aparência física e buscar prazer na competição e na ostentação.

É urgente tomarmos consciência desse fenômeno e lutarmos contra sua força de propagação, pois ele nos traz, quase sempre, a angústia e a frustração, deixando-nos infelizes. A indústria e o comércio precisam da nossa impotência, nossa insegurança e angústia para obter, sempre mais, os seus lucros. Querem que sintamos culpa, quando nossa silhueta fica um pouco mais gorda porque, se não ficarmos angustiados, não faremos regimes, não compraremos mais produtos dietéticos, nem produtos de beleza, nem roupas e mais roupas.

Você sabe por que a televisão, a publicidade, o cinema e os jornais defendem os músculos torneados, as vitaminas milagrosas, as modelos longilíneas e as academias de ginástica que supostamente vão moldar o corpo das pessoas? Porque tudo isso dá dinheiro. Sabe por que ninguém fala do afeto e do respeito entre duas pessoas comuns, mesmo que ‘fora de forma’, ou não tão bonitas, que passeiam de mãos dadas, olham-se nos olhos e visitam os amigos? Porque isso não dá dinheiro para os industriais e comerciantes, mas dá prazer para os participantes.

O prazer também é físico, independentemente do físico que se tenha: namorar, tomar “milk-shake”, sentir o sol na pele, carregar o filho no colo, andar descalço, ficar em casa sem fazer nada. Os melhores prazeres são de graça – a conversa com o amigo, o cheiro de uma flor, a tranquilidade do campo – e a humanidade sempre gostou de conviver com eles. Comer uma refeição simples e feita com amor em família, tomar uma caipirinha no sábado pode ser também uma grande pedida. Ter um momento de prazer é compensar muitos momentos de desprazer.

Relaxar, descansar, despreocupar-se, desligar-se da competição, da áspera luta pela vida – isso é prazer, é qualidade de vida. Buscar uma vida saudável, baseada em valores éticos e morais, é cada vez mais necessário, a cada dia que passa. Almejar o conhecimento, o crescimento intelectual, a harmonia consigo mesmo e com os outros é o que realmente importa, tanto em casa, quanto na escola e na sociedade. Ter como foco a saúde do corpo, fazer caminhadas e ginástica, é essencial, mas, sem a saúde da alma e do intelecto, sem o equilíbrio emocional necessário, sem sabedoria, teremos uma situação incompleta para nossa realização.

Em casa e na escola, os educadores não podem perder de vista essa realidade, refletindo com os filhos e alunos, separando o ‘joio do trigo’, buscando o discernimento entre o que realmente é bem-estar físico, saúde, higiene, vaidade necessária para uma vida feliz e o que é paranoia, propaganda enganosa e mercantilismo, que nos levem a situações que só nos façam mal.