Dia a Dia

O feijão e a crise humana

Benedicto Ismael Camargo Dutra

27 de novembro de 2021

Na questão do setor imobiliário chinês, está meio difícil de entender por que investiriam em projeto que consome muitos recursos sem oferecer retorno, levando à crise financeira nos resgates. Mas a produção de manufaturas com custo bem inferiores aos demais países gerou muitas divisas e agora está meio travada. A renda cai para a população em geral que precisa fazer remanejamento dos gastos, e muitas coisas acabam sobrando nas prateleiras. São desajustes que estavam previstos para ocorrerem em momentos de redução do fluxo do dinheiro, e não será fácil o retorno ao que era.

São transformações em andamento, com o consumo se concentrando em itens essenciais e encalhe de produtos manufaturados como roupas, cosméticos e outros. Isso também acaba atingindo as exportações da China já afetadas pelo dólar mais caro, tudo convergindo para a redução da velocidade do avanço da economia mundial.

O que devem fazer países como o Brasil para manter a economia num ritmo estável de produção, trabalho, renda, consumo? Feijão e pão. Parece brincadeira o relaxamento com a segurança alimentar. Usam o solo, a água, o ar, mas só se produz o que gere dólares. É muito pouco caso geral. De que adianta exportar tanta soja in natura e depois ter de importar o feijão preto da China? Exportar é importante, mas vamos lá autoridades do Brasil, acordar para evitar as costumeiras barbaridades na gestão do país.

Drogas são produzidas e vendidas por causa do ganho elevado. As pessoas que se entregam ao uso de drogas em geral não sabem por que e para que estão vivos e não têm nenhum objetivo a ser alcançado a não ser ir empurrando a vida meio sem rumo. A forma de viver tem se tornado áspera e vazia. O aumento de usuários de drogas compromete o futuro dos países e da humanidade.

A situação do ser humano é de suma gravidade ao entorpecer a alma, o corpo e a mente. Antes, as trevas queriam rebaixar as pessoas através de cultos decadentes de orgias envolvidas pelas fumaças e beberagens inebriantes; depois entraram outros interesses. Guerra do ópio. Dinheiro e poder paralelo. Hoje é o tráfico. Maconha, coca, ópio, heroína, drogas sintéticas. Muito dinheiro em jogo, muitos interesses promovendo a decadência da humanidade.

Cada indivíduo nasce para evoluir física e espiritualmente, mas acaba se enroscando no mundo material, apegando-se a ninharias, ao dinheiro e poder, e então os tiranos passam a buscar formas para dominar e manter a massa domesticada e algemada a fim de que possa exercer a sua prepotência e cobiças.

A linguagem atual é outra, mas o problema da humanidade é o mesmo. A tecnologia muda a cara de questões antigas, como a displicência com a finalidade maior da vida e com o aprimoramento da espécie, perturbadora do funcionamento sustentável da natureza.

Antes era a falta de propósitos voltados para o bem geral; agora são os links e algoritmos selecionadores, impondo conceitos. Estão faltando os que promovam o bem e a melhoria geral das condições de vida e da qualidade humana sobre a Terra que, presa ao materialismo, vai se deteriorando.

A cultura é fundamental para a boa formação. Atualmente, predomina a cultura de massa nos filmes neuróticos e barulhentos, e nas peças apelativas, que longe de contribuir para o aprimoramento, induzem ao desânimo e à falta de esperança de melhor futuro. Raramente aprofundam o tema do ser humano, seu mistério, sua missão, sua finalidade. As produções modernas estão ásperas, violentas, com baixa inspiração, monótonas, fogem da nobreza e da colheita justa.

A possibilidade de viver num padrão de vida que permita às pessoas adquirir os bens que desejarem para uma boa qualidade de vida é realmente um sonho a ser alcançado. No entanto, cada ser humano deve ter a nítida noção de que no mundo material tudo é perecível e que não deve viver exclusivamente para as aquisições que são um meio, e não um fim em si. Por ser humano, deve ter em si a busca de valores perenes que o diferenciam das demais criaturas.

BENEDICTO ISMAEL CAMARGO DUTRA, graduado pela Faculdade de Economia e Administração da USP.