Dia a Dia

O Comedor De Línguas

POR ALINE DE OLIVEIRA SILVA

5 de fevereiro de 2021

Tempos atrás, um menino chamado Lucas morava com seus pais na fazenda. O pai trabalhava na lavoura; a mãe cuidava da casa, e preparava o almoço para a criança levar para o pai que lutava muito para sustentar a família e não tinha tempo para ir em casa almoçar. Na marmita, ela sempre colocava dois pedaços de carne e mais algumas coisas do agrado do marido. Como o caminho até a lavoura era longo, Lucas parava para descansar e comia a carne deixando apenas os ossos na marmita.

Certa vez, vendo aquilo, o pai perguntou ao menino o que havia acontecido com a carne. Para se explicar, o menino dizia que um homem havia visitado sua casa e, não tendo mais carne, a mãe oferecera a que tinha ao homem, colocando só os ossos para o pai. Quando o menino retornou à sua casa, com medo de que o pai descobrisse sua mentira, ele calçou botinas velhas e andou pelo terreiro fazendo marcas para o pai pensar que tudo era verdade e que um homem havia mesmo estado ali.

O pai do menino, muito enfurecido com a situação, foi ter com sua mulher para esclarecer o acontecido, e acabou matando-a, ao imaginar que ela o traía com outro. Mesmo na ânsia da morte, ela ainda conseguiu perguntar o motivo de ele fazer aquilo com ela, pois não devia nada. O pai disse que o filho havia dito que um homem estava em sua casa e ela havia dado a carne para ele e colocado os ossos na marmita. Ouvindo isso, já quase sem vida, a mãe excomungou o menino, dizendo:

— Filho ingrato, a partir de hoje, durante um período de sete anos você só comerá línguas para pagar por este seu pecado!

Desde então, o menino passou a se transformar em aves e animais. Desta forma, ele atacava vacas, cavalos e outros bichos, retirando suas línguas para se alimentar. Conta-se que ele comeu a língua de seis bois, em uma fazenda próxima a de seus pais.

Houve relatos de que um carreiro viajava com seu carro de boi, e, transformado num grande gavião muito feio, o menino pousou na canga dos bois, e com uma voz horrível perguntou ao carreiro: — De qual dos bois eu posso comer a língua? O carreiro, com muito medo, disse:

— Não quero que coma da junta de cabeçalho. Fora eles, pode ser o que quiser.

Então, ele comeu a língua de dois bois de guia, voou para um cupim, e o carreiro, muito assustado, seguiu sem os dois bois. Além disso, ele atacou um cavalo na porta de uma casa, porém os moradores começaram a orar e a fazer promessas. Com isso, ele fugiu sem se alimentar da língua do cavalo, mas continuava a comer línguas.

Esse fato aterrorizou todos os moradores da região da Canastra, por muito tempo. As pessoas tinham muito medo de serem atacadas pelo “comedor de língua”. Dessa forma, elas nem se arriscavam a ficar fora de casa durante a noite. A população pediu ao vigário local que convocasse também outros vigários para reforçarem e ampliarem as orações do povo, para que aquele fato parasse de acontecer, mas somente depois de cumprida a praga dos sete anos lançada pela mãe, a comunidade pôde ficar tranquila novamente. Os mais antigos dizem seriamente que este fato aconteceu…

ALINE DE OLIVEIRA SILVA integra a coletânea de autores de outras 100 histórias regionais que estão reunidas em um livro organizado pela escritora Maria Mineira. São textos de seus alunos do 3º ano do Ensino Fundamental à 3ª série do Ensino Médio, ano de 2018. Com o apoio da Cooperativa Educacional de São Roque de Minas foi lançado em 2019: “Letras da Canastra- Cooperativa Educacional Escrevendo História”. Para adquirir um exemplar entre em contato pelo e-mail: [email protected]