Dia a Dia

O cantor que era a voz orgulho do Brasil Parte 2 (final)

LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO

2 de agosto de 2021

Em São Paulo, onde morei durante trinta anos, procurei um professor de canto indicado por um amigo de minha terra, Aparecida, e que havia estudado com ele. Meu amigo, Pascoal Blanque, era de uma outra cidade do Vale do Paraíba e se estabeleceu como comerciante em Aparecida e lá se deu bem. Gravou uma música bonita de Theotônio Pavão, com o título “Passarela da Fé” e que está num LP de músicas com temas católicos e na internet também. O professor chamava-se Vicente de Lima e mais tarde descobri que seu pai, Silvestre de Lima, nasceu em São Sebastião da Ventania, hoje, Alpinópolis, aqui pertinho de Passos, no Estado de Minas Gerais.

Durante dois anos estudei com Vicente de Lima e depois fui estudar com José Perrota, um cantor lírico com voz de baixo e contemporâneo de Vicente Celestino. O José Perrota tinha também um irmão, Alfredo Perrota, com voz de barítono e que fazia parte de um coral do Teatro Municipal de São Paulo. Estava José Perrota um dia no camarim de um teatro em Porto Alegre, RS, onde participava de uma ópera, e recebeu ali a visita de Vicente Celestino. Ele me disse que Vicente Celestino falou para ele largar mão de ser cantor de ópera, pois, no Brasil, não davam o devido valor, que não iria ganhar um bom dinheiro e acabaria pobre. Também estudei com José Perrota por dois anos e depois eu o encontrei uma ou duas vezes. Sua esposa era batalhadora e ajudava na manutenção dos dois, pois as aulas não eram suficientes. Pelo que eu soube, ele teve alguns maus momentos. Não foi praga de Vicente Celestino, foi apenas um conselho! Vicente Celestino teve envolvimento com o mundo operístico no início da carreira e vislumbrou logo que a vida de cantor popular oferecia melhores condições de progresso, de sucesso e, portanto, melhores condições de planejar um futuro promissor e garantido para quando acabasse a carreira. Poderia, então, desfrutar de uma velhice com maior segurança. Era assim, ao menos, naquela época! Vicente Celestino foi mais positivo e realmente teve uma carreira brilhante, com altos e alguns baixos, é claro, como acontece em qualquer profissão. Gravou inúmeras músicas, não apenas explorando seu potencial vocal, mas, músicas que precisou aplicar uma doçura e leveza na voz. Gravou músicas enaltecendo as belezas do Brasil e o espírito cívico do brasileiro. Filho de italianos, mas, brasileiro por nascimento, ele era uma pessoa que demonstrava amar sua pátria e sua gente.

Além do seu famoso filme “O Ébrio”, dirigido pela esposa Gilda de Abreu e que fez um tremendo sucesso na época, no qual ele canta a música do mesmo nome e também a música “Porta Aberta”, que já citamos no texto anterior, ele gravou muitas e muitas outras músicas maravilhosas e que podem ser encontradas nas casas especializadas na divulgação delas e também na internet.

Na música “Mia Gioconda”, já mencionada no texto anterior e revivida há alguns anos, ele cria uma história de um pracinha brasileiro que, ao terminar a Segunda Grande Guerra Mundial, deveria voltar para o Brasil. Estavam os pracinhas na Itália, mas, ele foi impedido de trazer a esposa italiana por ordem da FEB, a Força Expedicionária Brasileira. Foi uma homenagem aos pracinhas.

Há alguns anos, na cidade de Cabo Verde, MG, fui convidado por um amigo a cantar uma música, quando lá inauguraram a estátua de um pracinha. A cidade havia enviado alguns pracinhas para a guerra, não me informaram quantos. Todos voltaram, pelo que eu soube. O interessante é que eu deveria cantar apenas a música “Amigos para Sempre”. Antes da apresentação na praça onde seria inaugurada a estátua, houve um café no prédio de uma escola.

Uma senhora veio perguntar se eu conhecia a música “O Pracinha”, pois seu pai, que foi um dos pracinhas, gostava muito da música. Eu disse que não conhecia, mas, logo, me veio à mente a música “Mia Gioconda”. Cantarolei para ela o começo da música e ela confirmou que era a própria música. Por sorte, o violonista Emerson Freitas, que me acompanhava, era muito bom e conhecia a música. Conseguimos dar o recado. No tocante a mim, Vicente Celestino era bem melhor, é claro!

LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO professor de oratória e de técnica vocal para fala e canto em Carmo do Rio Claro/MG, ex-professor do ensino comercial com reg. no MEC formado no Curso Normal Superior pela Unipac. E-mail: [email protected]