Dia a Dia

O cantor que era a voz orgulho do Brasil – Parte 1

LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO

26 de julho de 2021

Um dos maiores cantores populares do passado, no nosso imenso Brasil, era conhecido como Vicente Celestino. Há uma tendência, não só no Brasil, mas, em outros países também, de criar uma espécie de “pseudônimo”, ou seja, um apelido ou um qualificativo para a pessoa que se torna famosa por suas qualidades, Vicente Celestino, então, era conhecido como “A Voz Orgulho do Brasil”. Ele nasceu com o nome de Antônio Vicente Filipe Celestino, em 12 de setembro de 1894. Há registro de ter nascido em 1896. Vicente Celestino foi contemporâneo de vários cantores da época. Uns, tiveram carreiras longas, outros, nem tanto.

Aos oito anos de idade trabalhou como sapateiro, vendedor de peixe, jornaleiro e, já mocinho, foi chefe de sessão de uma fábrica de sapatos. Lembrei-me agora da música “Canção do Jornaleiro”. Aos onze anos de idade, em 1905, ele foi ver uma apresentação de Baiano e Eduardo das Neves. Descobriu ali que era o que desejava fazer: ser cantor. Passou a cantar para quem o quisesse ouvir e recebeu convites para cantar em clubes de recreação. O que ganhava por dia ele dava aos pais para ajudar na manutenção da família, pois eram pobres. Os pais eram imigrantes italianos, tinham vindo da Calábria. Eram doze filhos no total, família numerosa. Foi convidado para cantar em uma companhia de teatro, fazendo parte do coro. Como profissional estreou cantando a música Flor do Mal, na peça teatral Chuá, Chuá. A música fez parte de seu primeiro disco gravado pela então famosa Casa Edison, fazendo muito sucesso. Era o primeiro passo no mundo das gravações e a carreira tinha aí o seu primeiro impulso. Por volta de 1915 foi contratado por outra companhia e também trocou a Casa Edison pela Odeon, onde gravou algumas músicas. Em 1919, ele começou a participar de várias operetas ao lado de cantoras da época e também colaborou na montagem das óperas: Carmen, Aida (Aída) e Tosca, famosas e reapresentadas até hoje nos grandes teatros de óperas do mundo.

O sistema elétrico de gravações chegou ao Brasil em 1920 e substituiu o sistema mecânico. Por ter uma voz potente, Vicente teve dificuldades para gravar no novo sistema. Ficava longe dos microfones, de costas, mas, mesmo assim dizem que sua voz soava como um eco e a compreensão da letra ficava prejudicada. A Odeon trouxe um engenheiro do exterior para solucionar o problema. Também li, certa vez, que Carlos Galhardo, um tenor popular de voz linda, não tão potente, considerado “O Rei da Valsa” (sua especialidade), ao entrar no estúdio pela primeira vez e observar Vicente Celestino cantando de costas para os microfones, quis desistir de gravar, achava que não “daria conta da empreitada”, como se diz.

Não satisfeito na Odeon, o cantor mudou-se para a Colúmbia e em tempos de 1935 firmou contrato com a RCA Victor, permanecendo nela até sua inesperada morte. Vicente Celestino, considerado um tenor por muitos e um barítono por outros, foi definido num programa do Rolando Boldrin, pelo maestro Júlio Medaglia, como um tenor meio “abaritonado”. Eu acredito que ele era um tenor dramático, a voz mais potente de um tenor, uma voz “cheia”, com alguns graves.

Vicente Celestino fez alguns filmes e gravou inúmeras músicas de sucesso. O seu mais famoso filme é “O Ébrio”, onde canta a famosa música do mesmo nome e também a música “Porta Aberta”. Foi dirigido por sua esposa Gilda de Abreu, que também era cantora e gravou músicas com ele. O filme está na internet. Fizeram muitas excursões pelo Brasil e ele ganhou dinheiro. Há alguns anos, sua música “Mia Gioconda” foi revivida por alguns cantores. A música, de 1945, foi uma homenagem, na época, aos pracinhas brasileiros na Itália. Foi longa sua carreira, com linda voz e bela dicção!

Quando completaria 74 anos de idade, estava em São Paulo, no Hotel Normandie. Estava se preparando para participar de um espetáculo que iria depois para a televisão. Sentiu-se mal e morreu poucos minutos depois, problemas do coração. Era o dia 23 de agosto de 1968. O Brasil acabava de perder a “Voz Orgulho do Brasil”. Tivemos outras vozes, maravilhosas, mas, a dele era diferente de outras vozes, um timbre peculiar, marcante.

Bem, há muitas outras informações sobre ele, em jornais, revistas, livros e hoje na internet.

LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO, professor de oratória e de técnica vocal para fala e canto em Carmo do Rio Claro/MG, ex-professor do ensino comercial com reg. no MEC formado no curso Normal Superior