Dia a Dia

O burro de Buridan

POR DÉCIO MARTINS CANÇADO

11 de Maio de 2021

Nossa convivência no dia a dia, tanto na família quanto na sociedade, é uma complexa teia de relações pessoais, com pessoas diferentes, de formações diferentes, com gostos e interesses próprios e que têm de conviver, e essa convivência, de uma forma ou de outra, tem que ser pacífica e até se possível, prazerosa.

Nós erramos muito, mas acertamos também. É no viver que vamos nos corrigindo, melhorando nosso jeito de ser, sentir, falar e ouvir, de aceitar e intervir. Cada vez mais, notamos que há, hoje, uma enorme distância entre o mundo dos adultos e o da juventude. Isso faz com que o sentimento dos jovens em relação à Família seja muito fluido. Eles não veem o lar como um espaço de socialização, interação e entendimento. É urgente prestarmos atenção a essa questão.

As pessoas convivem na família grande parte de suas vidas e precisam mudar sua maneira de ser e conviver, e a única maneira de mudar é de ‘dentro para fora’. O que estamos fazendo com nossas vidas? Precisamos dar início a uma profunda reflexão, descobrir quais são as nossas reais metas na vida. O que queremos a curto e longo prazo, para sermos mais felizes.

A mudança não conta para ninguém que está acontecendo (pelo menos não diretamente). É preciso estar permanentemente atento aos seus sinais e ser proativo nas adaptações necessárias. Estive pensando a respeito do que rege nossas atitudes, o que comanda nossas ações e nossas decisões! Seria a ‘razão’, pura e simplesmente, ou deveríamos nos deixar levar também pela ‘emoção’! Num mundo veloz, nossas decisões têm que ser tomadas com muita rapidez e, quase sempre, com acerto.

Isso ocorre em casa, desde cedo, quando escolhemos a roupa que usaremos, quais as prioridades de nossos afazeres naquele dia, e se estende até a noite, passando pela aquisição ou não de alguma coisa, pela vontade de dar um telefonema a um amigo, ou lhe fazer uma visita, ou ainda, a respeito da educação dos filhos, o que é certo ou errado, como devem ser encaminhados determinados problemas, que atitude tomar, relacionada ao cônjuge ou aos colegas de trabalho. São decisões e mais decisões que exigem de nós, sabedoria, equilíbrio e discernimento.

Por outro lado, como normalmente não nos encontramos preparados para as ‘perdas’ a que estamos sujeitos em nossas vidas, elas nos causam muito desconforto e, até mesmo, angústia e sofrimento. Pela falta de preparo e consciência de que certos acontecimentos, contratempos e aborrecimentos são naturais na vida de cada um, é que muitas coisas acontecem sem que as entendamos muito bem, sem que saibamos como lidar com elas de um jeito inteligente.

O que pode ser previsto, esperado, deve ser trabalhado, pois fatalmente irá acontecer e, através de uma preparação prévia, poderemos amenizar seus efeitos para nós mesmos e para as pessoas com quem convivemos. Roberto Campos nos diz: “A nossa época é uma dessas épocas em que a poeira das ‘’perguntas’ demora a assentar, e quando as ‘respostas’ chegam, já estão ‘obsoletas’”. Tudo tem que ser rápido, eficiente, e quase sempre priorizamos o uso da razão para tomarmos nossas decisões, em detrimento do uso da emoção.

Essa questão é tratada com muita propriedade no livro ‘Emotion, Evolution and Rationality”, de Dylan Evans e Pierre Cruse, de acordo com artigo de Tomás Magalhães Carneiro. Quase sempre nos deparamos com uma dúvida atroz: Não sabemos, no momento de uma decisão, se seria melhor agirmos através da ‘racionalidade prática’ ou através das ‘emoções’, pois a ideia dominante, desde Platão até os nossos dias (sobretudo no ocidente), é a de que as emoções são um entrave ao comportamento racional dos seres humanos, como se estivéssemos sempre colocando em ‘xeque’, as situações ambíguas que se apresentam perante nós: ‘razão’ versus ‘emoção’, como já foi dito ou, então, a ‘Lógica’ e a ‘Intuição’, ou o ‘pensamento Racional’ e o ‘pensamento Irracional’ e, finalmente, a ‘Verdade’ e a ‘Falsidade’.

Depois de milhares de anos em que foram reprimidas e afastadas dos estudos sérios acerca da racionalidade, as ‘emoções’ são, hoje em dia, consideradas por filósofos, psicólogos e neurocientistas como ‘vitais para a ação inteligente’.

Nem sempre devemos nos ater ao uso da razão para a tomada de decisões. “O papel das emoções é o de ‘reduzir’ o número de opções a serem avaliadas pela análise racional de ‘custo-benefício’, quando ocorre um processo de tomada de decisão qualquer” e isso facilita, de certa maneira, nossas ações e, podemos dizer, até nos faz bem.

Relatamos aqui, para ilustrar essa reflexão, o caso do ‘burro de Buridan’, história atribuída ao filósofo escolástico Jean Buridan (1358), Reitor da Universidade de Paris, em que um burro, ao se deparar faminto e sedento, encontra-se diante de um monte de feno de um lado, e de um recipiente com água fresca do outro.

Fica então ‘pensando’, paralisado diante das duas opções, sem decidir-se por uma nem por outra, pois se comer, ficará com sede, e vice-versa, acabando por morrer de fome e de sede, em virtude de sua indecisão. Dizem que foi daí que surgiu a célebre expressão: ‘De pensar morreu o burro!…

A teoria de Buridan, a respeito das nossas decisões, era que nossas escolhas são determinadas por um ‘bem maior’, e que a liberdade que uma pessoa possui de decidir, é o poder que ela tem de mudar suas escolhas, e reconsiderá-las, no sentido de motivar suas ações.

Para sermos intelectualmente virtuosos, devemos, em primeiro lugar, ser moralmente virtuosos, e para isso, devemos ‘afinar’ as nossas emoções, competências, comportamento e hábitos.” Deixemos, então, fluir também as nossas emoções, junto com a razão, para podermos decidir com sabedoria as situações de conflito com que nos deparamos em nosso dia a dia.