Dia a Dia

O batismo

POR PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS

22 de julho de 2021

A cerimônia era solene, os pais muito religiosos sonhavam com o dia do batismo de seu bebê e por isso se prepararam com esmero para o momento. Não falo da preparação espiritual que há tempos já estava no coração daqueles pais. Afinal, só aqueles que creem conferem sentido no compromisso firmado diante de Deus e dos homens, apenas para os fiéis há significado na promessa de ensinar o filho a desfrutar das Escrituras Sagradas.

Os preparativos foram outros, menos complicados e mais onerosos. Pai, mãe e filha estavam estreando roupas confeccionadas por costureira renomada da cidade. Não havia maneira da filha estar mais bonita e cheirosa, um mimo. Os pais entraram imponentes no templo, carregando a menina como se fosse um troféu e muito orgulhosos da família formada.

O laçarote do cabelo e os babados de renda no colarinho do vestido acentuavam a miudeza da nenê. Sua pequena cabeça mais parecia o miolo de uma margaridinha na primavera. A igreja estava lotada com os familiares, os amigos, os colegas de trabalho, os vizinhos e os irmãos na fé. Logo após o batizado haveria um almoço para os íntimos, tudo planejado pela mãe.

A madrinha da criança queria arrasar, por isso, apesar do calor de janeiro, alugou uma bota de cano alto para compor o seu traje.
Na semana anterior ao batizado, o padrinho foi acometido por uma queda de cabelo repentina e idiopática, mesmo constrangido e desacostumado com a careca lustrosa não faltou ao evento.

Enfim, a expectativa era enorme em torno do batizado da bebê. Nem bem iniciou o culto, a criança já começou a dar sinais de irritabilidade, resmungava alto e contorcia-se no colo materno. A mãe retirou o laçarote e abriu dois botões do colarinho, que nada. Embora desfolhada, a margaridinha continuava rígida e se remexendo.

Com muito carinho, a mãe tentava acalmá-la com toques suaves e palavras doces no ouvido. Sem sucesso, quanto mais o tempo passava, mais alto o choro ficava. Por fim, chegou a hora tão esperada e todos se dirigiram para o púlpito, a bebê calou-se por um instante, parecia saber da importância do momento.

Então, quando tudo parecia se desenrolar bem, o silêncio da igreja foi quebrado por uma bateria de “traques” soltados pela criança.
Assim como nos grandes concertos musicais em que as prévias antecedem o grande show, a sinfonia de gases expelidos pela criança anunciou a grande obra.

E que obra! E que show! Dá para imaginar o que aconteceu? Num instante, mãe e filha estavam lambrecadas de um líquido marrom e mal cheiroso que a fralda não conseguiu segurar, as roupas mudaram de cor e o odor exalou pelo ambiente. Diante do imprevisto, todos ficaram confusos. O pai e a madrinha não ajudaram a mãe, ele para não se batizar e ela para preservar a bota alugada. O padrinho que já estava contrariado por ter exposto a sua careca brilhante saiu de fininho e assentou-se no banco da igreja. Coube ao celebrante sugerir que a cerimônia fosse adiada, com o que todos concordaram imediatamente.

Saíram do altar direto para a rua, onde receberam olhares de consternação e de diversão, muito mais de diversão. A bebê com uma carinha feliz e aliviada parecia saber de sua arte. Voltaram direto pra casa, lá a bebê dormiu um delicioso soninho. O sono dos inocentes, totalmente em paz e descompromissada com os planos alheios.

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais.