Dia a Dia

Nosso Relacionamento

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS

17 de março de 2022

Não foi um bom começo.
Como eu era muito novinha, senti-me tolhida, e se tem uma coisa que me irrita profundamente é perder a minha liberdade.
Por ele sofri privações; algumas coisas simples e prazerosas da vida, como praticar atividade física com as amigas, tornaram-se um tormento.
Apesar do stress, sabia ser o comum para o início de um relacionamento. Aos poucos, as primeiras dificuldades evoluíram para uma adaptação agitada, até tudo se encaixar para que eu me sentisse confortável com a nova realidade.
Naquele momento, eu possuía as minhas prioridades, mas elas foram reavaliadas diante da novidade.
E, como cantam as músicas sertanejas, a nossa relação tornou-se um misto de amor e ódio, de idas e vindas, só que, com o tempo, as vindas tornaram-se de maior número. Criei com ele um dos piores vínculos numa relação, a dependência.
Quando percebi, eu já estava totalmente envolvida no relacionamento, e até a minha identidade estava entrelaçada a ele. Eu não existia, não ouvia, não falava e não enxergava sem a sua assistência.
E fui me recolhendo cada vez mais, o meu temperamento introspectivo acordou, e, de certa forma, fui incentivada por ele tanto a viver a ilusão nos livros, quanto a abandonar a de ser levantadora da seleção brasileira de vôlei.
Então, me acomodei na relação, já não me sentia atraente e fui me desleixando com a aparência. E mesmo quando “ninguém olhava para mim”, ele era o meu parceiro fiel.
A nossa relação entrou no ápice do comodismo e da estabilidade, porém, a mulher exigente que habita em mim queria mais do seu companheiro. Na maioria das vezes, dava certo, ele aparecia diferente, pequenas mudanças, mas grandes o suficiente para arrastarmos a nossa relação por um longo tempo.
Algumas amigas próximas me aconselharam a dar um tempo, diziam que eu precisava curar as feridas abertas por ele, e também diziam que o meu semblante parecia menos carregado e os olhos mais brilhantes com a sua ausência.
Mesmo sem me ver dessa forma(aliás, sem ver nada), segui o conselho. Mas, confesso que senti muito a falta dele; e depois de cada balada, os olhos meus baixos faziam com que eu me sentisse irreconhecível.
O diferente de tudo é que a nossa relação fez o caminho inverso da maioria , pois enquanto algumas parcerias começam com o amor e paixão e desandam com o convívio, a nossa se iniciou com a convivência e desembocou no amor.
Com o passar do tempo não nos desgrudamos mais, estávamos juntos nas refeições, no trabalho, na diversão, na cama e até no banho. Neste lugar, em especial, eu me desmanchava em carinhos leves e cheios de espuma, percebi que o que faço de bom para ele, reflete diretamente em benefícios para mim.
Já faz tempo que as palavras de Herbert Vianna deixaram de ser as minhas: “Por que você não olha para mim? Me diz o que eu tenho de mal? Por que você não olha para mim? Por trás dessa lente tem uma menina legal…por trás dessa lente também bate um coração”
Hoje tenho segurança em saber que “por trás das minhas lentes de menina legal sempre bateu um coração”, e renovo meus votos com os meus óculos, esse parceiro de uma vida inteira. Que o nosso relacionamento duradouro e leal caminhe rumo as bodas de álamo, obrigada por diminuir os efeitos da minha hipermetropia e sempre me ajudar a enxergar a vida.

PATRÍCIA LOPES PEREIRA SANTOS, graduada em odontologia (PUCMG) e direito (Fadipa), mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional (Unifacef- Franca) e Especialista em Direito Público (Faculdade Newton de Paiva), é servidora pública do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. E-mail: [email protected] gmail.com