Dia a Dia

No meu tempo não era assim

Décio Martins Cançado

21 de setembro de 2021

Na fila do supermercado, o jovem caixa diz a uma senhora que ela deveria trazer suas próprias sacolas para as compras, uma vez que sacos de plástico não eram mais recomendados, pois depois de descartados, prejudicavam o meio ambiente. A senhora pediu desculpa e disse: “Concordo com você, mas não havia essa ‘onda verde’ no meu tempo”.

O caixa respondeu: – “Esse é exatamente o nosso problema, hoje, minha senhora. Sua geração não se preocupou o suficiente com o meio ambiente, e deve ser por causa disso que certas mudanças estão acontecendo, como o aumento do calor, a diminuição das chuvas, poluição ambiental, entre outras coisas”.

-“Acredito que você esteja certo, até certo ponto”, responde a senhora; -“Nossa geração talvez não tenha se preocupado adequadamente com o meio ambiente. Sabe por quê? Naquela época, as garrafas de leite, de refrigerante e cerveja eram devolvidas à loja, que as mandava de volta para a fábrica, onde eram lavadas e esterilizadas antes de cada reuso, e eles, os fabricantes de bebidas, usavam as garrafas por inúmeras vezes.

Será que não nos preocupamos com o meio ambiente no nosso tempo? Subíamos as escadas, porque não havia escadas rolantes nas lojas e nos escritórios. Caminhávamos até o comércio, ao invés de usar nosso carro, poluindo o ar que respiramos.
Mas você está certo. Nós não nos preocupávamos o bastante. Até então, as fraldas dos bebês eram lavadas, porque não havia fraldas ‘descartáveis’. As roupas lavadas eram secas por nós mesmos, não nessas máquinas bamboleantes de 220 volts. A energia solar e eólica é que realmente as secavam. Os meninos pequenos usavam as roupas que tinham sido de seus irmãos mais velhos, e não roupas sempre novas.

É verdade: não havia preocupação com o meio ambiente naqueles dias, pois tínhamos somente uma televisão ou rádio em casa, e não uma TV em cada quarto, ou cômodo. E ela tinha uma tela do tamanho de um lenço, não um telão do tamanho de um estádio, que depois será descartada… Quem sabe como?

Na cozinha, tínhamos de bater tudo com as mãos, porque não havia máquinas elétricas que faziam isto por nós. Quando embalávamos algo um pouco mais frágil para o correio, usávamos jornal amassado para protegê-lo, não plástico, que demora cinco séculos para se degradar.

Naqueles tempos, não se usava um motor a gasolina para cortar a grama, mas sim, um cortador de grama que exigia músculos. O exercício era extraordinário, e não precisava ir a uma academia e usar esteiras que também funcionam à eletricidade.

Você tem razão: não havia, naquela época, preocupação com a ecologia. Bebíamos água diretamente da fonte, quando estávamos com sede, em vez de usar copos plásticos e garrafas ‘pet’ que agora lotam os oceanos. As canetas eram recarregadas com tinta inúmeras vezes, ao invés de comprar outra e jogar a usada no lixo. Abandonamos as navalhas e passamos a utilizar os aparelhos ‘descartáveis’ e poluentes, só porque a lâmina ficou sem corte.

Na verdade, tivemos uma ‘onda verde’ naquela época. Naqueles dias, as pessoas tomavam o bonde, ou o ônibus, e os meninos iam em suas bicicletas ou a pé para a escola, ao invés de usar a mãe como um serviço de táxi 24 horas, ou as ‘Vans” e moto táxis. Tínhamos só uma tomada em cada quarto, e não um quadro de tomadas em cada parede, para alimentar uma dúzia de aparelhos. E nós não precisamos de GPS para receber sinais de satélites a milhas de distância no espaço, só para encontrar a pizzaria mais próxima.

Então, não é estranho e engraçado que a atual geração fale tanto em meio ambiente, mas não queira abrir mão de nada e não pense em viver um pouco como na minha época?

Após pagar suas compras, a senhora disse ao caixa: – “Um bom dia para você, bom trabalho, e reflita um pouco sobre a vida atual, sobre o que você e seus amigos podem fazer para colaborar com o meio ambiente”.